Cuidado com a RAIVA - Padre José Augusto
Resumo editorial
Como controlar a raiva quando alguém nos provoca? Nesta pregação, Padre José Augusto reflete sobre as palavras de Jesus no Sermão da Montanha e fala sobre ira, mansidão, perdão e reconciliação. Citando o exemplo de Jesus e de São Francisco de Sales, o sacerdote mostra que vencer a raiva exige oração, exercício constante, humildade e disposição para pedir perdão quando falhamos.Sobre esta mensagem
## Como controlar a raiva segundo a fé cristã? Uma pessoa grita com você. Alguém o ofende. Uma pessoa da sua própria família consegue irritá-lo profundamente. Qual deve ser a resposta de um cristão? Nesta pregação, Padre José Augusto parte de uma passagem do Sermão da Montanha para abordar uma das dificuldades mais comuns da vida cotidiana: controlar a raiva. ### Jesus vai além do “não matar” No Evangelho de Mateus, Jesus recorda o mandamento “não matarás”, mas leva seus discípulos a uma exigência ainda maior. A reflexão passa da violência física para aquilo que acontece dentro do coração. Raiva, insultos, desejo de vingança e incapacidade de reconciliação também precisam ser enfrentados. Para Padre José Augusto, seguir Jesus significa aceitar esse caminho mais exigente. Não basta afirmar que se é cristão. É necessário aprender a reagir de maneira diferente. ### As pessoas difíceis também podem nos transformar O sacerdote recorda uma frase bem-humorada de outro padre: “Eu quero ser santo, mas vocês não me deixam.” A ideia conduz a um ponto importante da homilia. São justamente as pessoas que nos irritam que oferecem oportunidades concretas para exercitarmos a mansidão. É fácil imaginar-se paciente quando ninguém nos provoca. O verdadeiro desafio aparece quando alguém grita, acusa, insiste, incomoda ou nos trata injustamente. ### O exemplo de São Francisco de Sales Padre José Augusto cita São Francisco de Sales como exemplo de mansidão. Segundo a reflexão apresentada, o santo era conhecido por um sorriso nos lábios e um olhar de bondade. Essa atitude podia desmontar uma situação de conflito. Quando alguém grita conosco, normalmente espera que também gritemos. Quando recebe uma resposta calma, a dinâmica muda. Mas alcançar esse domínio não acontece instantaneamente. O sacerdote recorda que São Francisco de Sales teria trabalhado durante muitos anos para controlar seu temperamento. A mansidão é apresentada, portanto, como exercício espiritual. ### Jesus diante da violência A pregação também recorda diferentes momentos da Paixão de Cristo. Judas trai Jesus com um beijo. Pedro reage com a espada. Um soldado agride Jesus durante seu julgamento. Em cada situação, Padre José Augusto destaca a maneira como Cristo responde sem se entregar à mesma violência recebida. Esse é o modelo que o cristão é chamado a perseguir. ### “Eu também fico irritado” Um dos aspectos mais pessoais da pregação é o reconhecimento do próprio sacerdote de que também luta contra a irritação. Padre José Augusto conta situações em que determinadas pessoas conseguem provocá-lo e admite que nem sempre consegue manter a calma. Ele apresenta isso como uma luta espiritual ainda em andamento. O objetivo não é justificar o próprio temperamento dizendo “as pessoas precisam me aceitar como sou”. Para ele, o cristão precisa buscar mudança. ### Oração antes de responder A homilia oferece também conselhos bastante práticos. Quando a raiva aumenta, parar e rezar lentamente pode criar o tempo necessário para que a emoção diminua. Padre José Augusto menciona rezar o Pai-Nosso, o Credo ou até um salmo mais longo. A intenção é interromper a reação imediata. Em vez de responder enquanto está dominado pela raiva, a pessoa ganha alguns minutos para recuperar o controle. ### E quando falhamos? A busca pela mansidão não significa que o cristão nunca mais ficará irritado. O sacerdote reconhece que existem momentos em que falhamos. Nesses casos, apresenta outra atitude essencial: pedir perdão. Talvez aquilo que foi dito fosse verdadeiro, mas a maneira de dizer tenha sido agressiva. Nesse caso, é possível reconhecer: “O que eu disse precisava ser dito, mas a forma como falei foi errada. Perdoe-me.” ### Raiva ou mansidão: uma escolha diária A mensagem da pregação não apresenta a mansidão como fraqueza. Ela aparece como domínio de si. É possível responder. É possível corrigir. É possível conversar sobre aquilo que está errado. Mas sem permitir que a raiva determine nossas ações. Por isso, a oração final resume toda a reflexão: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso.” Controlar a raiva pode levar tempo. Mas, dentro da perspectiva apresentada por Padre José Augusto, essa luta faz parte do próprio caminho de santidade.Transcrição
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus. Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus.
Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: não matarás. Quem matar será condenado pelo tribunal.
Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo.
Quem disser a seu irmão palavras ofensivas será condenado pelo tribunal.
Quem chamar o irmão de tolo será condenado ao fogo do inferno.
Portanto, quando estiveres levando tua oferta para o altar e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão.
Só então vai apresentar tua oferta.
Procura reconciliar-te com teu adversário enquanto caminha contigo para o tribunal.
Palavra da salvação. Glória a vós, Senhor.
Cada dia estamos avançando nesse chamado Sermão da Montanha, capítulos 5, 6 e 7 de São Mateus.
Jesus olha para aquela multidão que estava seguindo Ele junto com os apóstolos.
Depois de alguns milagres, a fama de Jesus estava crescendo e as pessoas começaram a segui-Lo.
Então é como se Ele perguntasse: vocês querem me seguir?
Para me seguirem, precisarão buscar a santidade. Precisarão ter uma vida diferente.
Ele começa falando das Bem-aventuranças.
Depois diz que precisamos ser sal e luz no mundo.
E, na medida em que vai falando, o cerco vai apertando.
Porque seguir Jesus não é fácil.
É fácil levantar o braço e dizer: eu te aceito como meu Senhor.
Agora, fazer aquilo que Ele pede começa a ser mais difícil.
Hoje Jesus diz que nossa justiça precisa ser maior do que a dos mestres da lei e dos fariseus.
Se nossa justiça não for superior à deles, não entraremos no céu.
E como era essa justiça?
Olho por olho e dente por dente.
Alguém me xinga e eu também xingo.
Mas Jesus começa justamente com o mandamento: não matarás.
Ele vai além e fala sobre a cólera, os insultos e a necessidade de reconciliação.
Se você possui alguma coisa contra alguém, resolva antes de vir se encontrar comigo.
Não é fácil.
Existe um padre na comunidade que certa vez disse:
Eu quero ser santo, mas vocês não me deixam.
O que estava por trás dessa frase?
Um irrita daqui, outro provoca dali.
Eu queria ser manso e humilde de coração, mas vocês não me deixam.
Às vezes parece que a única maneira seria ir para o meio do mato.
Mas as pessoas que estão ao nosso redor são também motivo de nossa santificação.
São elas que vão nos ajudar a exercitar a virtude da mansidão.
Existe um livro chamado Práticas de Amor a Jesus Cristo que possui um capítulo sobre mansidão.
Santo Afonso Maria de Ligório apresenta exemplos dos próprios santos.
Ele fala de São Francisco de Sales.
São Francisco de Sales tinha sempre um sorriso nos lábios e um olhar de bondade.
Com esse sorriso e esse olhar de bondade, ele conseguia quebrar a reação do outro.
Porque quando uma pessoa nos irrita, ela muitas vezes já espera a resposta.
Quando alguém grita com você, espera que você também grite.
Mas quando você responde com um sorriso e um olhar de bondade, muda completamente a situação.
Chegar a esse grau exige muita oração, jejum e humildade diante de Deus.
Senhor, muda este coração.
Quando alguém vier me irritar, ajuda-me a ter um sorriso nos lábios e um olhar de bondade.
São Francisco de Sales possuía um temperamento que não era fácil.
Ele precisou de muitos anos de exercício para conseguir se controlar.
Não acontece de um dia para o outro.
É exercício contínuo.
Também podemos olhar para Jesus.
Judas chega para traí-Lo com um beijo.
Jesus olha para ele e pergunta se com um beijo está traindo o Filho do Homem.
Pedro pega a espada para defender Jesus e corta a orelha de Malco.
Jesus interrompe Pedro e ensina que quem fere com a espada também poderá ser ferido pela espada.
Depois, durante o julgamento, um soldado dá um tapa em Jesus.
Jesus pergunta: se falei alguma coisa errada, mostre o que foi; mas, se falei corretamente, por que me bates?
Era Jesus, mas Ele mostrou que também podemos buscar essa mansidão.
Precisamos pedir essa graça.
Eu mesmo conheço pessoas que conseguem me irritar.
Existe uma pessoa na cidade que, quando me encontra, consegue me provocar.
Às vezes pede alguma coisa. Quando recebe, pede outra. Isso me irrita.
Mas também percebo que essas situações são oportunidades para treinar minha mansidão.
Preciso olhar para a pessoa, mesmo irritado, e tentar responder com bondade.
É uma luta.
Quando vou me confessar, muitas vezes preciso reconhecer: eu me irritei.
Talvez por fora eu consiga não demonstrar, mas por dentro ainda existe aquela agitação.
Mas acredito que um dia vou avançar.
Se São Francisco de Sales conseguiu, também preciso me abrir à graça de Deus.
As pessoas não precisam simplesmente me aceitar do jeito que sou.
Eu preciso melhorar.
Certa vez estava diante de uma pessoa extremamente irritada comigo.
Ela falava e eu tentava me controlar.
Chegou o momento em que precisava responder.
Respirei e propus rezarmos uma Ave-Maria.
Eu precisava fazer alguma coisa para não responder dominado pela raiva.
Não é fácil controlar.
Existem momentos em que consigo e outros em que não consigo.
Mas preciso continuar lutando.
A capacidade de dominar essa reação vem também da oração.
Tenho que rezar.
Tenho que pedir a Deus a graça.
Tenho que me humilhar.
Na vida comunitária e na vida familiar isso aparece constantemente.
É fácil demonstrar mansidão com pessoas de fora.
Com quem mora conosco muitas vezes é mais difícil.
Com os de fora queremos mostrar nossa melhor versão.
Dentro de casa aparecem nossas reações mais espontâneas.
Em outra situação, diante de um grupo de pessoas, alguém começou a dizer várias coisas a meu respeito que não correspondiam à verdade.
Eu me senti humilhado.
Minha vontade era pegar o microfone e responder tudo aquilo que sabia.
Mas consegui me segurar.
A pessoa falou e eu permaneci ali tentando controlar minha reação.
Depois peguei o microfone e respondi apenas algumas coisas.
Naquele dia consegui.
Mas sei que, conhecendo meu temperamento, poderia facilmente ter reagido de outra maneira.
Eu digo que sou um homem de Deus.
Você diz que é um homem ou uma mulher de Deus.
Então precisamos perguntar se vamos nos comportar da mesma maneira que alguém que não aceita esse caminho.
Eu não quero me perder por causa de outra pessoa que consegue me irritar.
Preciso me controlar e saber a hora certa de conversar.
Quando estou irritado, preciso reconhecer o que acontece dentro de mim.
Não significa necessariamente alguma influência extraordinária.
Muitas vezes é simplesmente nossa própria fraqueza humana e aquilo que precisamos aprender a dominar.
Algumas pessoas contam até dez.
Outras podem rezar.
Pai nosso que estais nos céus...
Mas precisa rezar devagar.
Quando terminar a oração, talvez a raiva já tenha diminuído.
Pode rezar o Credo.
Pode pegar um salmo longo e rezar.
Quando terminar, talvez consiga olhar para a situação de outra maneira.
Precisamos aprender a responder com calma.
Jesus diz que precisamos nos controlar.
Eu já fiz progressos, mas ainda tenho muito para avançar.
Tenho que lutar e me segurar.
E quando eu não conseguir, preciso chegar diante da pessoa e pedir perdão.
Posso dizer:
Perdoe-me pela forma como falei.
Talvez aquilo que eu disse fosse verdade, mas a maneira como falei não foi correta.
Perdoe-me pela forma.
Assim é o cristianismo.
Se queremos permanecer nesse caminho, precisamos aprender a viver dessa maneira.
No mundo existe a lógica da vingança.
Recebeu uma agressão, devolve.
Não leve desaforo para casa.
No cristianismo, somos chamados a outra resposta.
Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.