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Fontaines D.C. acerta ao não buscar reinvenção em "Dopamine Chamber"

Por Equipe Editorial CifraNET · · 8 min de leitura
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Fontaines D.C. acerta ao não buscar reinvenção em "Dopamine Chamber"

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Fontaines D.C. – “Dopamine Chamber”

Fontaines D.C. – “Dopamine Chamber”

Tem banda que a cada disco novo acorda querendo ser outra pessoa. Muda o cabelo, muda o som, aparece com orquestra, com sintetizador, com um saxofone que ninguém pediu… E aí tem o Fontaines D.C., que entra na sala sacudindo a chuva de Dublin do casaco pesado, pede uma pint de Guinness e pergunta: “mas por que eu mudaria o que já funciona?”

Pra quem chegou agora (senta aí, a gente se ajeita): o Fontaines é uma banda de Dublin que explodiu em 2019 com Dogrel e, desde então, só empilhou disco bom em cima de disco bom (a gente pode até tentar ser imparcial, mas nesse caso, não tem como ter outra opinião).

O nome vem de Johnny Fontane, o cantor de O Poderoso Chefão, e o “D.C.” é de Dublin City. À frente de tudo está o Grian Chatten, que canta como quem recita um poema e xinga o governo no mesmo fôlego, e resumindo muito podemos dizer que isso o tornou uma das vozes mais reconhecíveis do rock hoje.

E falando em poesia: irlandês nasce com a literatura no sangue, e o Fontaines não foge à regra. Autores como James Joyce e Brendan Behan estão no DNA das letras, que nunca foram só sobre “amor e saudade”.

Aqui, a banda nunca se escondeu atrás do famoso “sou só músico, não entendo de política”. Enquanto o mundo pega fogo, eles falam e se posicionam, sempre: seja sobre conflitos como o da Palestina ou questões envolvendo geopolítica, eles realmente entenderam que o palco não serve só para tocar guitarra. 

Quando o palco vira palanque

Isso tudo tem a ver com a época em que eles apareceram. O Fontaines faz parte da safra de bandas pós-Brexit, quando o clima era de incerteza, raiva e muitas perguntas sem respostas.

O Brexit pode ter sido um desastre em muita coisa, mas rendeu uma geração com assunto, atitude e guitarra pra dizer tudo bem alto. Isso ajuda a explicar quem eles são: inquietos, politizados e muito firmes na própria identidade.

Só que o novo álbum, chamado de Dopamine Chamber, chega num momento bem mais delicado. Ele aparece sob o impacto da perda repentina de Trevor Dietz, empresário e mentor da banda. E essa não é o tipo de notícia que passa batida num estúdio, e dá pra sentir que o luto e uma urgência criativa conduziram essa fase nova. É disco de quem entendeu que não dá pra deixar pra depois.

O que esperar do novo disco do Fontaines D.C.?

(Spoiler: eles não reinventaram a roda, e ainda bem). 

As guitarras pesadas estão lá, com aquele anti-refrão que não parece refrão e, três dias depois, você está cantando. A bateria entra forte e é impossível ouvir sentada (eu tentei, não consegui). A voz do Grian está mais madura, mais presente, e continua sendo o centro de gravidade de tudo.

Mas calma que nem tudo é porrada! Aqui existe um cheirinho de synthpop oitentista que remete ao Depeche Mode e dá vontade de dançar com um copo na mão e alguns problemas para esquecer. Em outros momentos, o álbum desacelera e flerta com o folk irlandês, enquanto certas passagens passeiam entre referências ao Pixies, The Velvet Underground e até mesmo um pouco do comecinho da carreira do U2… e sim, tudo funciona! 

A participação de ROSALÍA na faixa “Where Is Gone?” é outro destaque e reforça algo que a artista já provou inúmeras vezes: talento de verdade também está na capacidade de transitar por universos sonoros completamente diferentes sem parecer deslocada. Há ainda trechos (e arrisco dizer que uma faixa inteira!) que evocam a carreira solo de Grian Chatten, como se o vocalista deixasse escapar um pouco do próprio universo dentro dessa construção coletiva.

O mais interessante, porém, é como todas essas referências convivem sem transformar Dopamine Chamber em uma colcha de retalhos. Existe uma melancolia que atravessa o disco e amarra suas diferentes texturas, mantendo tudo coeso sem apagar a identidade que a banda sempre teve. E vale prestar uma atenção especial nos coros, que aparecem de forma recorrente ao longo do álbum: são vozes que se encontram e crescem juntas, como num pub irlandês depois da quarta rodada, só que aqui aparentemente ninguém perdeu o tom.

E o mais bonito de Dopamine Chamber? É que tudo funciona. As faixas conversam entre si, as referências não parecem jogadas ao acaso e existe uma sensação muito boa de estar diante de uma banda que sabe exatamente quem é, e que não precisa entrar em crise de identidade a cada novo disco para provar que continua relevante. 

As letras passeiam por temas como prazer, alienação digital, escapismo e a sensação de viver em um mundo que parece estar desmoronando enquanto a gente tenta encontrar alguma coisa, qualquer coisa, que nos dê alguns segundos de satisfação. E é aí que o título ganha uma camada especialmente interessante: uma câmara de dopamina é quase uma metáfora para o ambiente em que vivemos, cercados por estímulos que disputam nossa atenção e alimentam incessantemente nosso sistema de recompensa. É o tipo de lugar em que você pega o celular para olhar uma notificação e, quando percebe, já perdeu 40 minutos da vida vendo vídeos de gente reformando casas que você nunca vai ter ou consumindo produtos que você nunca irá comprar.

Em uma sociedade que transforma atenção em mercadoria, prazer em produto e distração em mecanismo de sobrevivência, até que ponto estamos realmente escolhendo aquilo que consumimos? 

Não dá para afirmar que essa seja a chave definitiva para interpretar o disco, mas é uma leitura que faz bastante sentido dentro desse cenário. E também dialoga com uma característica importante do Fontaines: uma banda que não se limita a fazer música, mas que carrega um olhar crítico sobre o mundo ao redor, com uma postura que frequentemente ultrapassa os limites do palco.

A inquietação aqui não aparece na forma de um discurso explícito a cada faixa, ela também está na atmosfera que eles criam, nas contradições e na sensação de desconforto que atravessa o álbum. Musicalmente, é justamente essa combinação de identidade e inquietação que faz a diferença. 

Há momentos de irlandesidade pura e crua, sem firula, sem precisar enfeitar demais o que já nasce potente. 

É o tipo de passagem que me lembra por que os fãs se apaixonaram por essa banda em primeiro lugar. (Confesso que rolou uma lágrima. E olha que estamos falando de uma pessoa que provavelmente deveria aprender a ouvir um disco sem transformar a experiência em um pequeno acontecimento emocional. Mas fazer o quê?). Quando uma banda consegue construir algo tão coeso sem abrir mão das próprias raízes, fica difícil não se envolver. 

Se alguém perguntar sobre álbum do ano, temos um candidato: e olha que ainda estamos em outubro!

E tem outro detalhe particularmente animador sobre essa nova era: quem já teve a oportunidade de ver o Fontaines ao vivo nesta fase sabe que as músicas lançadas como singles ganham outra dimensão no palco. Elas crescem, ficam mais intensas, encontram espaço para respirar e se transformam em algo muito maior do que aquilo que ouvimos nos fones. 

Os coros parecem feitos para serem berrados por milhares de pessoas que talvez não concordem em absolutamente mais nada, mas que, por alguns minutos, estarão cantando a mesma coisa. Pensar em como essas músicas podem funcionar nos shows só aumenta a expectativa pelo que ainda está por vir.

Fontaines D.C. pela primeira vez no Brasil

E a melhor parte vem agora: o Fontaines D.C. vem pra América Latina pela primeira vez, com show confirmado no Lollapalooza Brasil 2027!

Se o disco já faz a gente pular e cantar sozinho na sala de casa, imagina ao vivo, no meio da multidão, com todo mundo gritando aqueles coros a plenos pulmões? Vai ser lindo, vai ser barulhento e tem tudo pra ser daquelas experiências que lembram por que ainda vale tanto a pena sair de casa pra ver uma banda tocar.

O FDC prova que o rock não morreu, ele só continua nas mãos de quem sabe fazer. 

Então já pode começar a treinar o pulo, a garganta e a resistência emocional. Porque, se depender deles, o som irlandês e a atmosfera vibrante vão ser fortes o bastante pra fazer até a chuva de Interlagos parar. Eles vêm direto de Dublin, então o clima de São Paulo não vai ser problema.

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Fonte: TMDQA!

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