"Vas a ganar", sentenciou em março o presidente
"Vas a ganar", sentenciou em março o presidente da Argentina, Javier Milei, ao encontrar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e abraçá-lo na posse do líder chileno, José Antonio Kast, em Santiago.
O coração de Milei certamente bate por Flávio nas eleições presidenciais brasileiras, mas é praticamente consensual entre pessoas com acesso à Casa Rosada: quando a administração pública argentina projeta cenários e mapeia riscos, a torcida fria é pela reeleição de Lula (PT).
Reservadamente, uma fonte do país vizinho explica o aparente paradoxo: a perda do status de parceiro preferencial de Donald Trump na América do Sul, com uma eventual vitória de Flávio, faz grande parte do governo ver na continuidade de Lula o cenário ideal.
Não dá para desprezar o raciocínio. Basta resgatar o que ocorreu menos de um ano atrás. Em setembro de 2025, em um revés para Milei, o peronismo obteve uma ampla vitória nas eleições da Província de Buenos Aires (que equivale sozinha a São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro juntos como proporção do eleitorado nacional).
Houve uma corrida cambial e temores de nova crise econômica. Analistas políticos apontavam a possibilidade de Milei tornar-se precocemente um "pato manco" com uma iminente derrota também nas eleições legislativas (com renovação de boa parte da Câmara e do Senado) de meio de mandato.
A Casa Rosada buscou desesperadamente o governo de Donald Trump e o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, empenhou-se pessoalmente em um resgate de US$ 20 bilhões à Argentina. Deixou claro que o socorro financeiro estava condicionado à vitória de Milei.
O dinheiro estabilizou a situação macroeconômica, tirou pressão do peso e deu fôlego renovado ao presidente libertário. O governo virou o jogo e Milei saiu fortalecido das eleições legislativas, com ganhos expressivos da bancada de seu partido, La Libertad Avanza.
Uma fonte ouvida pela CNN em Buenos Aires enfatiza: essa prioridade dada hoje pela gestão Trump à Argentina, para além de qualquer alinhamento ideológico, tem um objetivo bastante pragmático.
Trata-se de manter, sob sua influência, um parceiro preferencial numa região que vinha tendo predomínio da esquerda: Gustavo Petro (Colômbia), Gabriel Boric (Chile), Lula (Brasil).
Kast tomou o lugar de Boric, Petro tem imensa dificuldade de fazer um sucessor, Nicolás Maduro foi capturado e abriu caminho para interesses americanos na Venezuela. A direita avança no mapa político sul-americano.
Diante do tamanho do mercado brasileiro e de diversos fatores de atração para os Estados Unidos, como minerais críticos e petróleo farto, a percepção em parte expressiva do governo Milei é de que uma vitória de Flávio Bolsonaro faria a Casa Branca desviar sua parceria preferencial para Brasília, deixando a Buenos Aires um papel menor.
Por isso, segundo pessoas bem posicionadas em Buenos Aires, não se pode confundir sentimento com racionalidade. O coração de Milei bate por Flávio, a cabeça apoia Lula.
Fonte: CNN