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Poucos zagueiros na história do futebol podem se vangloriar de terem parado Pelé. Vicente Lucas, defensor português que morreu nesta terça-feira (14), aos 90 anos, foi além: parou o Rei duas vezes.
Nascido em Moçambique, na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo), Vicente iniciou a carreira como atacante. E foi nessa função que chegou ao Belenenses em 1954. O clube de Lisboa, onde também atuava seu irmão Matateu, era uma das principais forças do futebol português na época.
O técnico chileno Fernando Riera, porém, identificou no moçambicano qualidades para atuar mais recuado, tanto como meio-campista quanto como defensor.
Bom marcador, mas de futebol elegante, ganhou elogios da revista francesa France Football nos duelos contra Milan e Real Madrid pela Taça Latina de 1955. A essa altura, já estava consolidado como zagueiro e um dos pilares da equipe de Belém, o que o levaria a assumir a braçadeira de capitão.
Na seleção portuguesa, que incorporava jogadores nascidos nas colônias - como Eusébio e Mário Coluna, por exemplo -, Vicente fez sua estreia em 1959. Na vitória por 1 a 0 sobre a Escócia, inclusive, jogou ao lado do irmão Matateu.
Ainda chegariam, na década seguinte, os jogos contra Pelé que marcariam a trajetória do zagueiro com a equipe nacional.
Transformando o rei em plebeu
"Em 21 de abril de 1963, a forma exemplar como parou Pelé naquela que seria a primeira vitória de sempre de Portugal sobre a bicampeã do mundo, perante um Estádio Nacional cheio, consagrou definitivamente a aura de Vicente, o jogador que, como se escrevia no jornal A Bola, 'conseguiu transformar o rei num plebeu'. No fim do jogo, seria elogiado pelo próprio Pelé pela marcação 'impecável'", diz trecho do livro 100 anos, 100 nomes, 100 momentos - A história e as histórias da seleção nacional, editado e publicado pela Federação Portuguesa de Futebol.
Ao longo da carreira, Vicente Lucas enfrentaria o Rei do Futebol em seis oportunidades, uma delas pelo Belenenses, e as outras pela seleção portuguesa.
O confronto mais lembrado, contudo, seria o da Copa do Mundo de 1966.
A Seleção Brasileira chegava com o peso do bicampeonato mundial, mas uma preparação caótica sob o comando de Vicente Feola terminou por minar as chances da equipe de buscar o tri em solo inglês.
Já Portugal disputaria naquele ano a sua primeira Copa. Apesar de estreantes, chegavam no torneio cercados de expectativa, especialmente pela presença de Eusébio, a Pantera Negra.
Após vencer a Bulgária na estreia por 2 a 0, o Brasil foi derrotado pela Hungria na segunda rodada, por 3 a 1. A partida contra Portugal, então, teria caráter decisivo para a classificação dos bicampeões do mundo.
No Estádio Goodison Park, em Liverpool, os portugueses venceram por 3 a 1. Ainda que os métodos empregados pela seleção lusitana para marcar Pelé tenham sido questionáveis - houve um rodízio de faltas duras no Rei, e os cartões só foram implementados como punição a partir de 1970 -, Portugal conseguiu parar o escrete brasileiro. Graças, em grande parte, à atuação de Vicente.
Pelé no chão durante a derrota do Brasil para Portugal na Copa de 1966 - Planar/Daily Mirror/Mirrorpix via Getty Images
"A receita, explicava Vicente, era manter os olhos na bola e antecipar o movimento", diz o verbete dedicado ao zagueiro no livro 100 anos, 100 nomes, 100 momentos.
Em fotos da vitória portuguesa sobre o Brasil, é possível ver Pelé cumprimentando todos os lusitanos depois do apito final. Ao lado do Rei está Vicente, que não desgrudou do camisa 10 nem mesmo após a partida.
Em sua estreia nas Copas do Mundo, Portugal terminou com o terceiro lugar, uma campanha histórica para o país. Contudo, para Vicente, o Mundial na Inglaterra representaria um dos últimos momentos de alegria no futebol.
No ano seguinte, em 1967, Vicente sofreu um acidente automobilístico próximo ao Estádio do Restelo, casa do Belenenses, e perdeu a visão no olho direito. Com isso, precisou pendurar as chuteiras.
Ao todo, o defensor moçambicano disputou 20 partidas pela seleção (19 como titular). Seu aproveitamento com a equipe nacional é positivo: 10 vitórias, 2 empates e 8 derrotas, incluindo o terceiro lugar no Mundial.
"Tendo representado Os Belenenses ao longo de 12 temporadas, totalizando 284 encontros oficiais pelos azuis do Restelo, Vicente Lucas marcou a história do futebol português. A Federação Portuguesa de Futebol associa-se à dor da família, dos amigos e de todos os que com ele privaram, recordando com respeito e reconhecimento o contributo e legado de Vicente Lucas para o futebol português", disse a federação, em nota, sobre a morte do ex-jogador.
Uma trajetória que ganhou notoriedade não só entre os portugueses, mas também entre os adversários. Pelé que o diga.
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Fonte: CNN