Os Bastidores da Criação de "Loveless": Como My Bloody Valentine Produziu um Álbum Caro e Icônico em 1991
Por Equipe Editorial CifraNET · 25/06/2026
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O álbum "Loveless", lançado em 1991 pela banda irlandesa My Bloody Valentine, é amplamente reconhecido como um dos maiores marcos sonoros da década de 1990. Este trabalho não apenas revolucionou o gênero shoegaze com sua mistura inovadora de guitarras, amostragens digitais e técnicas pouco convencionais, mas também ficou famoso por ser um dos álbuns mais caros e complexos já produzidos, um fato que gerou tensão com a gravadora Creation Records.
A gravação de "Loveless" começou em fevereiro de 1989 no Blackwing Studios, em Southwark, com a expectativa da gravadora de que o processo duraria apenas cinco dias. No entanto, o que se seguiu foi um período de meses marcado por dificuldades e atrasos. Kevin Shields, vocalista e guitarrista da banda, relembrou que quando ficou claro que a banda não cumpriria o prazo, a gravadora entrou em pânico. O grupo, formado por Shields, Bilinda Butcher, Debbie Googe e Colm Ó Cíosóig, enfrentou uma série de desafios técnicos e financeiros que prolongaram as sessões de gravação.
Após os primeiros meses improdutivos, a banda mudou-se para o estúdio The Elephant, em Wapping, onde passaram mais oito semanas sem avanços significativos. Durante esse período, houve troca constante de engenheiros de som, e, segundo Shields, as fitas das sessões chegaram a ser confiscadas várias vezes pelos proprietários do estúdio devido à falta de pagamento. Essa instabilidade refletia a precariedade financeira da banda e da gravadora.
Posteriormente, o grupo trabalhou no EP "Glider" no Woodcray Studios, em Berkshire, que foi lançado antes de "Loveless" com a aprovação do dono da Creation Records, Alan McGee. Alan Moulder, responsável pela mixagem da faixa "Soon" do EP, ganhou a confiança de Shields e foi convidado a trabalhar no álbum. Anjali Dutt também participou das gravações, contribuindo com vocais e guitarras, embora tenha saído antes da conclusão do projeto.
Durante a primavera de 1990, My Bloody Valentine continuou a experimentar diferentes estúdios, dedicando apenas um dia para avaliar cada local. Em maio, estabeleceram-se no Protocol Studios, em Holloway, onde intensificaram o trabalho em "Loveless" e no EP "Tremolo". Em agosto, Moulder retornou para as sessões do álbum, mas notou que pouco havia sido finalizado, enquanto a Creation Records começava a se preocupar com os custos crescentes.
Foi somente em maio de 1991, quando Bilinda Butcher se juntou às gravações nos estúdios Britannia Row e Protocol, que o progresso realmente aconteceu. O processo de gravação era rigoroso: Shields e Butcher isolavam-se em cabines com as janelas cobertas por cortinas, comunicando-se com os engenheiros apenas por gestos para indicar quando estavam satisfeitos com uma tomada. O engenheiro Guy Fixsen revelou que eles sequer podiam ouvir as gravações durante as sessões, tendo que confiar apenas nos medidores das máquinas de gravação.
Em julho, a banda mudou-se para o Eastcote Studio, mas a Creation Records não conseguiu pagar as contas acumuladas em Britannia Row. Segundo Anjali Dutt, Shields precisou levantar dinheiro pessoalmente para retirar os equipamentos da banda do estúdio. A falta de clareza sobre as razões das mudanças constantes e os atrasos começou a afetar seriamente as finanças da gravadora.
Dick Green, executivo da Creation Records, recordou em seu livro "The Creation Records Story" que, dois anos após o início das gravações, chegou a ligar para Shields emocionado, implorando para que o álbum fosse entregue. Apesar da pressão, Shields defendeu que o processo não foi um experimento prolongado, mas sim um trabalho focado desde o início, prejudicado por uma rede de apoio insuficiente e dificuldades financeiras.
Além dos problemas financeiros, Shields e Butcher desenvolveram tinnitus, o que atrasou ainda mais as sessões. Quando as faixas vocais foram finalmente concluídas, a mixagem final ocorreu no estúdio The Church, em Crouch End, o 19º estúdio utilizado no projeto. Lá, enfrentaram outro contratempo: o equipamento antigo do estúdio causou um problema de fase em todo o álbum, que Shields teve que corrigir manualmente ao longo de 13 dias - um processo que normalmente levaria apenas um dia.
O custo total das gravações de "Loveless" se tornou alvo de especulações. Enquanto a revista Melody Maker sugeriu um valor próximo a £250.000, Shields desmentiu essa cifra, afirmando que o gasto real foi em torno de £140.000. Ele ressaltou que, embora o valor pareça alto, outras bandas em grandes gravadoras gastavam o dobro. Para Shields, o foco excessivo nos custos ofuscava a importância artística do álbum.
Apesar de não ter alcançado grande sucesso comercial - alcançando apenas a 24ª posição nas paradas do Reino Unido e não entrando nas listas dos Estados Unidos - "Loveless" foi aclamado pela crítica e se tornou um clássico cult do shoegaze. A Creation Records, temendo repetir os problemas financeiros e logísticos, acabou dispensando a banda após o lançamento.
Hoje, "Loveless" é celebrado como um pilar fundamental do gênero shoegaze, um álbum que desafiou convenções e influenciou gerações, mesmo carregando o peso de uma produção longa, dispendiosa e cheia de obstáculos. Seu legado permanece como um testemunho da visão artística de My Bloody Valentine e da complexa jornada por trás de sua criação.
Credit: Album CoverCredit: Anna MeldalCredit: Steve Speller / Alamy