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O setor elétrico brasileiro acaba de ganhar uma nova variável para acompanhar nos próximos meses. A confirmação do El Niño pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), em 11 de junho, marca o início de uma nova fase do sistema climático global, com potencial para influenciar chuvas, temperaturas, geração renovável e preços de energia.
A metáfora do efeito dominó ajuda a entender o momento. Um evento no oceano Pacífico pode desencadear uma sequência de impactos interligados no clima (as chamadas teleconexões atmosféricas) e, consequentemente, na economia. No caso atual, a primeira peça já está em movimento.
O aquecimento persistente das águas do Pacífico Equatorial, em sua porção central e leste, associado a alterações nos padrões de circulação atmosférica, consolidou a entrada do planeta na fase ativa do El Niño. As projeções da NOAA indicam 63% de probabilidade de que o fenômeno alcance a categoria de El Niño Muito Forte entre novembro e janeiro, o que o colocaria entre os eventos mais intensos desde o início dos registros modernos, em 1950.
A possibilidade de um El Niño muito forte chama atenção não apenas pela intensidade projetada, mas também pela recorrência desses eventos nas últimas décadas. Caso confirmado as projeções atuais, 2026/27 poderá se juntar aos episódios históricos de 1982/83, 1997/98, 2015/16 e 2023/24, reforçando uma sequência cada vez mais frequente de eventos extremos.
Eventos dessa magnitude costumam influenciar a temperatura média global e frequentemente estão associados aos anos mais quentes já registrados. Não por acaso, as projeções indicam que o atual ciclo poderá contribuir para novos recordes globais de calor nos próximos meses.
Ainda assim, é importante interpretar os sinais com cautela. O El Niño não atua de forma isolada nem produz os mesmos efeitos em todos os episódios. Sua principal influência está em aumentar a probabilidade de determinados padrões climáticos, enquanto a intensidade e a distribuição dos impactos dependem da interação com outros fatores atmosféricos e oceânicos. Em outras palavras, ele influencia a direção da sequência de dominós, mas não define sozinho onde cada peça irá cair.
Toque agora.
No Brasil, os efeitos seguem padrões conhecidos, embora com variações a cada evento. A Região Sul tende a registrar chuvas acima da média, com maior frequência de eventos extremos. Já a faixa norte das regiões Norte e Nordeste apresenta maior risco de precipitações abaixo da média, irregularidade da estação chuvosa e aumento do estresse hídrico. As temperaturas, por sua vez, devem permanecer acima da média em grande parte do país, especialmente no Centro-Oeste, Sudeste e interior do Nordeste.
Para o setor elétrico, o fenômeno adiciona complexidade ao cenário de planejamento. Embora a volatilidade atual do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) ainda não esteja diretamente associada ao fenômeno, a consolidação de um El Niño forte tende a ampliar as incertezas hidrológicas e manter os preços mais sensíveis ao longo dos próximos meses.
O aumento das chuvas no Sul e sul do Sudeste pode favorecer a Energia Natural Afluente (ENA) na região. Ao mesmo tempo, temperaturas mais elevadas devem pressionar a demanda por eletricidade, especialmente no Sudeste, enquanto a redução das chuvas no Norte pode limitar parte da recuperação hídrica do sistema.
Esse contexto ocorre justamente em um momento de crescimento estrutural da carga. Segundo o PLAN 2026-2030, o consumo deverá avançar cerca de 5% em 2026, alcançando aproximadamente 85 GW médios, ante cerca de 81 GW médios registrados em 2025.
As fontes renováveis também devem sentir os efeitos de maneira distinta. A geração solar tende a ser beneficiada em áreas estratégicas do interior do Nordeste e do norte de Mina Gerais, onde a menor nebulosidade pode ampliar a disponibilidade de radiação. Já para o restante do Sudeste e Centro-Oeste, o cenário permanece mais incerto.
No caso da geração eólica, os impactos devem variar ao longo do ano. Durante parte da safra de ventos, no início do segundo semestre, o fenômeno pode reduzir a intensidade dos ventos em algumas regiões. Por outro lado, a perspectiva de menos chuva no Nordeste ao final do ano tende a favorecer a geração em polos importantes da Bahia e na divisa entre Piauí e Pernambuco.
O solo mais seco aumenta o risco de queimadas e pode impactar linhas de transmissão e infraestrutura elétrica. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram redução dos focos de incêndio em 2025, mas um cenário de calor e estiagem pode reverter essa tendência. Além disso, a atmosfera mais quente favorece temporais severos e eventos extremos, impactando cidades e infraestrutura.
Ainda há incertezas sobre a intensidade final do fenômeno e seus impactos regionais. Mas os sinais atuais indicam um segundo semestre mais quente e mais desafiador para a gestão dos recursos energéticos e hídricos do país.
No setor elétrico, acompanhar a evolução do El Niño será tão importante quanto monitorar reservatórios, carga e preços. Em um sistema cada vez mais exposto à variabilidade climática, antecipar riscos segue sendo uma das principais ferramentas de decisão.
Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
Fonte: CNN
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