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Depois de dois anos de queda nos preços e frustração com parte das promessas do chamado "Vale do Lítio", mineradoras e consultorias voltaram a falar em otimismo no norte de Minas Gerais.
Em Salinas, durante o Lithium Business, evento voltado à cadeia do lítio, o tom dominante foi o de que o pior momento do mercado ficou para trás, ainda que o setor descarte, por ora, uma volta aos preços excepcionais registrados no pico da euforia de 2022.
A leitura é que o mercado entrou em uma nova fase. Menos explosiva do que a vista no auge da corrida global por baterias, mas mais favorável do que o cenário observado em 2024 e 2025, quando a combinação de excesso de oferta, estoques elevados e desaceleração em parte da demanda derrubou os preços e colocou projetos em compasso de espera.
Para empresas do setor, o patamar atual já é suficiente para retomar estudos, destravar investimentos e recolocar projetos na mesa. A cautela, porém, permanece. O lítio segue sendo uma commodity jovem, altamente volátil e ainda muito dependente da dinâmica chinesa, tanto do lado da demanda quanto da formação de preços.
"Bom, o pessimismo diminuiu", afirmou à CNN Marisa Cesar, diretora de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da PLS, mineradora com ativos de lítio na Austrália e Brasil.
"É óbvio que, quando o preço começou a subir, a primeira reação foi pensar: será que isso se sustenta? Porque a queda foi muito brusca. Mas a gente não pode esquecer que estamos falando de um mineral muito jovem, de uma commodity nova e que ainda tem muita volatilidade", disse Marisa.
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Segundo dados da Argus Media, agência de precificação de commodities, o carbonato de lítio grau bateria, com pureza mínima de 99,5%, estava cotado a US$ 21,55 por quilo no mercado CIF China em 7 de julho. Já o concentrado de lítio, no caso do espodumênio com teor entre 5% e 5,5%, estava em US$ 2.075 por tonelada, também no mercado CIF China. A referência CIF China indica o preço do produto entregue ao mercado chinês, já considerando frete e seguro internacional.
Os valores estão longe do pico visto no ciclo de 2022, mas representam uma recuperação relevante em relação ao pior momento do mercado. Para mineradoras, a diferença é importante: os preços atuais não recriam o ambiente de euforia que marcou a primeira onda do lítio, mas ajudam a viabilizar projetos mais competitivos, sobretudo na etapa de mineração e concentração do minério.
Marisa afirma que, para a fase inicial da cadeia - da exploração mineral ao primeiro processamento, com a produção de concentrado -, o preço atual já pode ser considerado suficiente. A avaliação muda, porém, quando a discussão avança para refino, conversão química e agregação de valor no país.
"Quando falamos principalmente da exploração mineral e da primeira parte do processamento, onde se chega ao concentrado, eu posso dizer que sim", disse. "Agora, quando falamos em cadeia de valor e transformação mineral, é preciso uma análise mais profunda. A conta não depende somente do valor do minério."
A fala resume um dos principais dilemas do lítio no Brasil. O país tem reservas, projetos e uma província mineral que ganhou visibilidade internacional, especialmente no Vale do Jequitinhonha e no norte de Minas. Mas ainda ocupa, em grande parte, a etapa inicial da cadeia, com produção de concentrado de espodumênio.
A conversão em carbonato ou hidróxido de lítio, produtos usados diretamente na cadeia de baterias, segue concentrada na China, onde há excesso de capacidade instalada e uma cadeia industrial já consolidada. Na prática, isso desestimula parte dos investidores a bancar projetos de refino fora da China, porque a competição ocorre contra uma estrutura que já tem escala, tecnologia, fornecedores e mercado consumidor. Diante desse cenário, o setor cobra políticas públicas que ajudem a reduzir riscos e criar condições para que o Brasil avance além da mineração, com mais processamento e agregação de valor em território nacional.
Retomada dos preços
Para Pedro Consoli, responsável pela precificação de lítio na América do Sul na Argus Media, a virada recente de preços tem explicações claras, como a redução da oferta disponível no mercado e crescimento acima do esperado da demanda por sistemas estacionários de armazenamento de energia, conhecidos pela sigla BESS, de Battery Energy Storage Systems.
"Em 2025, o preço dos compostos de lítio atingiu uma mínima histórica. Foi um momento muito difícil para o mercado, porque muitos projetos e estudos de viabilidade tinham sido feitos com base em preços maiores", afirmou Consoli. "O preço chegou naquele nível porque havia superávit de oferta. Tinha mais lítio disponível do que demanda."
Segundo ele, o movimento começou a mudar no segundo semestre do ano passado, quando parte da oferta foi retirada do mercado em diferentes regiões do mundo. Ao mesmo tempo, a demanda ligada a baterias estacionárias avançou em ritmo mais forte do que o esperado.
"Houve um crescimento inesperado dos sistemas estacionários de armazenamento de energia. Foi algo muito mais acelerado do que o mercado previa e de um tamanho maior também", disse.
Os dados de demanda apresentados pela Argus Media reforçam essa mudança estrutural. Em 2019, veículos elétricos respondiam por 36,2% da demanda global de lítio, enquanto sistemas estacionários de armazenamento representavam apenas 2,8%. Em 2025, a participação dos veículos elétricos chegou a 55,4%, enquanto o armazenamento estacionário avançou para 24,5%.
Esse movimento ajuda a mudar a narrativa do setor. Durante os últimos anos, o lítio foi tratado quase exclusivamente como uma commodity ligada ao carro elétrico. Agora, a expansão de baterias para redes elétricas, energia renovável, data centers e segurança energética cria uma segunda frente de demanda. Para as mineradoras, isso reduz parte da dependência do mercado automotivo e pode dar mais sustentação aos preços.
A retomada, porém, não elimina a volatilidade. Consoli afirma que o pico recente ocorreu em maio e que os preços já recuaram parcialmente desde então, com o retorno de parte da oferta ao mercado. Ainda assim, a expectativa da Argus é de manutenção de um patamar considerado saudável nos próximos meses.
No caso do espodumênio, principal produto exportado por mineradoras de rocha dura, o preço atual é visto como suficiente para sustentar margens elevadas em operações competitivas. Segundo Consoli, mineradoras brasileiras de espodumênio conseguem operar, no patamar atual, com margens expressivas.
"É um preço que viabiliza novos projetos e permite que planos antigos sejam retirados da estante e colocados no papel de novo", disse. "Mas, no Brasil, não é só dinheiro. Existem muitos fatores: confiança do investidor externo, licenciamento e a própria volatilidade do mercado."
Novo ciclo
Essa é uma das principais cautelas para o novo ciclo. Mesmo com preços melhores, a retomada de investimentos depende da volta da confiança de compradores, bancos e investidores. O lítio continua sendo um mercado menor e mais volátil do que commodities tradicionais como minério de ferro e cobre.
A disputa global também pesa. A cadeia do lítio ainda é fortemente influenciada pela China, que concentra parte relevante do refino e da fabricação de baterias. Isso significa que movimentos de estoque, produção industrial, subsídios, política comercial e demanda chinesa podem alterar rapidamente o equilíbrio de mercado.
Para o Brasil, o cenário abre uma janela, mas não garante sucesso automático. O norte de Minas ganhou visibilidade nos últimos anos como uma nova fronteira global do lítio, com projetos em Salinas, Araçuaí, Itinga e outros municípios do Vale do Jequitinhonha. A região atraiu empresas estrangeiras, investidores e atenção do governo, mas ainda precisa provar que consegue transformar potencial geológico em produção consistente, infraestrutura e desenvolvimento local.
Depois do boom e do tombo, o lítio entra em uma fase de maior seletividade. Projetos com boa geologia, custo competitivo, licenciamento avançado e acesso a capital tendem a se destacar. Os demais podem continuar no papel, mesmo com preços melhores.
A avaliação predominante em Salinas é que o pior ficou para trás. Mas o setor também reconhece que a nova fase será diferente da euforia de 2022. O lítio voltou a animar empresas e investidores, mas agora precisa provar que consegue sustentar um ciclo mais maduro, com menos promessa e mais entrega.
*O repórter viajou a convite da PLS.
Fonte: CNN
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