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O eleitor não escolhe o candidato que mais o convence: escolhe aquele que menos representa aquilo que já fracassou. Em 7 de junho, o Peru voltou a demonstrar exatamente isso. Em 21 de junho, a Colômbia está prestes a fazer o mesmo.
Mais de 72 horas após o fechamento das urnas no Peru, o país continua sem um presidente eleito.
Com aproximadamente 98% dos votos apurados, Roberto Sánchez, do Juntos por el Perú, mantinha uma vantagem de menos de 10 mil votos sobre Keiko Fujimori entre quase 18 milhões de votos registrados, uma margem tão estreita que as autoridades eleitorais advertiram que o resultado oficial definitivo poderia levar cerca de um mês para ser conhecido, após a resolução dos recursos de nulidade e das atas impugnadas.
O fato de o Peru ainda não saber quem será seu próximo presidente chama a atenção. Mas o mais revelador, porém, é que a incerteza eleitoral já não seja uma exceção, mas uma característica recorrente de seu sistema político.
E também que essa incerteza já não seja uma anomalia peruana: em boa parte da América Latina, as eleições não produzem legitimidade. Produzem mais dúvidas, mais questionamentos e líderes que assumem o poder com elevados índices de rejeição.
A repetição que não deveria acontecer
Em 2021, Fujimori perdeu para Pedro Castillo por 44,2 mil votos em um segundo turno que levou semanas para ser oficialmente certificado.
Toque agora.
Castillo governou de forma caótica, tentou um autogolpe em dezembro de 2022 e terminou na prisão, condenado a 11 anos.
As instituições que o sucederam jamais tiveram a confiança pública: segundo pesquisas do Instituto de Estudos Peruanos, a aprovação dos peruanos ao Congresso não superou 15% em nenhuma medição realizada entre 2023 e 2024.
Cinco anos depois, o Peru realizou um primeiro turno com 35 candidatos - uma das eleições mais fragmentadas de sua história recente - e produziu exatamente o mesmo confronto decisivo: Keiko Fujimori contra um candidato de esquerda que foi ministro no governo Castillo.
O resultado foi tão apertado que reativou imediatamente as mesmas denúncias de fraude e manipulação institucional vistas em 2021.
A pergunta que deveria ser feita não é quem venceu: é por que o Peru continua chegando ao mesmo precipício e por que seu sistema político é incapaz de produzir algo que o afaste dele.
A resposta é estrutural. Entre 2016 e hoje, o Peru acumulou oito presidentes em uma década, número sem precedentes em sua história recente.
O país convive com um Congresso que destituiu ou forçou a saída de diversos mandatários por meio de vacâncias constitucionais, e com um Judiciário preso às mesmas redes de corrupção que deveria combater: o escândalo dos Cuellos Blancos del Puerto, que em 2018 revelou vínculos sistemáticos entre juízes, promotores e integrantes do crime organizado, jamais foi efetivamente solucionado em sua essência.
O sistema partidário é tão frágil que 35 candidatos puderam disputar a Presidência sem que nenhum deles tivesse conseguido construir uma base eleitoral duradoura.
A isso se soma uma transição institucional de grande alcance: o retorno ao bicameralismo, com uma Câmara dos Deputados de 130 membros e um Senado de 60.
Governar sem maioria não será uma anomalia do próximo ciclo político, mas sua condição de partida. A capacidade do novo presidente de negociar e construir consensos definirá, antes de qualquer agenda programática, se o governo conseguirá se manter ou acabará caindo.
O outsider é o sistema
O que une Peru e Colômbia a Argentina, Equador e El Salvador não é a ideologia. É uma relação entre o eleitor e as instituições que entrou em colapso para além do ponto em que reformas convencionais seriam capazes de repará-la.
Javier Milei, Daniel Noboa, Nayib Bukele e, agora, De la Espriella não vencem porque os eleitores adotaram seus programas. As pesquisas de boca de urna realizadas na Argentina em 2023 e em El Salvador em 2024 apontaram na mesma direção: o principal motor do voto não foi a concordância com o programa do candidato, mas o desgaste e a exaustão em relação àqueles que vieram antes.
Eles vencem porque as alternativas - os partidos tradicionais, as coalizões estabelecidas, os nomes conhecidos - esgotaram sua credibilidade.
O mecanismo é consistente. A fragmentação no primeiro turno reflete a impossibilidade de construir amplas coalizões de centro. O segundo turno obriga a uma escolha binária entre dois polos que, somados, frequentemente representam menos do que a maioria do eleitorado. O vencedor chega ao poder sem um mandato suficientemente forte para governar, mas com adversários suficientemente mobilizados para desestabilizá-lo.
O caso peruano ilustra isso com clareza cirúrgica. O vencedor de 7 de junho, seja ele quem for, enfrentará um Congresso bicameral sem maiorias definidas, uma oposição que já fala em fraude antes mesmo da divulgação do resultado oficial e um país em que nenhum presidente, desde 2016, concluiu seu mandato de forma regular.
A fragilidade não é um acidente do sistema. É o seu produto.
O Brasil é, por enquanto, a exceção que confirma a regra. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou ao poder em 2022 apoiado por uma ampla coalizão, e os influentes partidos de centro no Congresso são justamente aqueles que limitam posições mais extremadas no momento de governar.
* Martín Morales é sócio-diretor da Arko USA
Fonte: CNN
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