"Não dá para competir com um mito": Johnny Marr fala ao TMDQA! sobre legado do The Smiths, novo disco solo e Andy Rourke
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Quem ajudou a definir o som do The Smiths sempre teve à disposição o caminho confortável de viver do que fez há quatro décadas. Johnny Marr nunca pareceu interessado nele e The Age of Everything, quinto álbum solo do músico de Manchester lançado em 2 de outubro, é mais um argumento nessa direção.
São dez faixas inéditas que sucedem Fever Dreams Pts 1-4 (2022) e que o próprio autor apresentou, ao anunciar o trabalho, como o disco mais catártico que já fez. A explicação encontra fundamento logo nas primeiras músicas do álbum, que apresentam de forma prática o conceito por trás da obra.
The Age of Everything, ou “A Era de Tudo” em tradução livre, aborda a sensação de sobrecarga que a tecnologia espalhou pela cultura, embora Johnny Marr faça questão de dizer que a mesma ideia também pode ser lida como uma ampliação das possibilidades. A sonoridade urbana é perceptível, e Marr conta que as cidades ao seu redor foram fundamentais para o surgimento da sonoridade.
Em conversa exclusiva com o TMDQA!, Johnny Marr falou sobre uma vasta gama de assuntos mesmo em um tempo curto. O papo passou, claro, pelo novo disco, mas também abordou temas como a influência do baixista Andy Rourke, parceiro de The Smiths e amigo desde a adolescência, e o legado da banda que carrega até hoje.
Johnny também falou sobre seu retorno ao Brasil depois de 11 anos. O show acontece em 24 de novembro no Tokio Marine Hall, em São Paulo, com realização da Balaclava Records, e será a primeira apresentação solo de Marr por aqui depois das passagens pelo Lollapalooza Brasil em 2014 e Cultura Inglesa Festival em 2015.
Leia a íntegra da conversa a seguir!
TMDQA! Entrevista Johnny Marr
TMDQA!: Johnny, é um prazer enorme falar com você. Sou seu fã, e é surreal estar tendo esta conversa! Adorei o disco novo e queria começar por ele. Uma das coisas mais legais que li no material que acompanha o álbum é que você adotou essa abordagem de escrever as músicas e levá-las ao público, para ver a reação das pessoas, antes de gravar as versões finais em estúdio. Como foi essa experiência, que parece algo novo a esta altura da sua carreira? E alguma coisa chegou a mudar por causa da resposta do público?
Johnny Marr: Foi algo empolgante de fazer, e diferente, como você disse. Subir ao palco diante de umas duas mil pessoas e tocar uma única música que elas não conhecem já é incomum, mas às vezes eu e minha banda tocávamos quatro ou cinco, e ao longo de uma turnê americana chegamos a tocar oito das dez músicas nos shows. E funciona, faz muito bem para você como compositor.
De certa forma, é quase uma abordagem antiquada de fazer discos, parece coisa dos anos 50 ou 60. Com certeza deixa os shows mais imprevisíveis para mim e para a banda. E acontecem coisas como perceber que um verso não está tão bom quanto deveria. Quando você está ali em cima do palco, você nota de verdade, não tem onde se esconder.
Por sorte isso não aconteceu muito, mas houve algumas músicas cujos títulos mudaram na hora em que fui escrevê-los no setlist para a equipe colocar no palco. Eu pensava: “Não, essa música tem que se chamar assim”.
Então é um jeito muito real e muito empolgante de compor. Para o resto da banda também é bem prático, porque baixo e bateria já sabem o que estão fazendo quando chegam ao estúdio.
TMDQA!: Isso me leva à segunda pergunta. Estou no aeroporto agora, prestes a sair de férias, e isso tem a ver com o que quero perguntar porque outra coisa que me chamou atenção foi você ter dito que muitas das músicas foram inspiradas pelos lugares que visitou. Eu entendo bem: cidades e lugares são uma inspiração enorme, seja quando você conhece um lugar novo, seja quando volta a um lugar antigo que tem outra atmosfera. Existe algum exemplo específico, uma música que tenha sido inspirada por um lugar ou por uma cidade em particular?
Johnny Marr: Pode ser óbvio, mas Londres é uma inspiração enorme neste álbum, porque é onde eu moro a maior parte do tempo hoje. “All in a Life” surgiu porque eu estava andando de metrô na manhã em que escrevi a música. Então há referências ao céu e a câmeras de segurança, eu menciono os aplicativos no celular e as pessoas indo ao caixa eletrônico. “Caught in the mystic eye under the beams and skies / Face in a vacant line, message the same, “Denied””, versos assim têm muito a ver com a cidade, com a experiência da cidade, eu acho.
Não consigo me lembrar bem das outras, mas há várias menções ao céu, como em “It’s Time”. Boa parte dessa música surgiu enquanto eu estava correndo por Londres e pensava na letra durante esse processo. Eu diria que todas as minhas músicas, em todos os álbuns, sempre parecem ligadas de alguma forma às cidades, porque passo muito tempo por aí em turnês.
TMDQA!: “It’s Time”, que você mencionou, é a minha favorita do disco. Um dos motivos, e o mesmo vale para outras como “Ophelia” e “Just Once More”, é a maneira como você se conecta com o baixo. Acho que isso faz parte do seu trabalho desde o The Smiths, claro, e, como baixista, é algo que me inspirou muito como músico porque no seu trabalho guitarra e baixo soam como complementos um do outro, e a sua guitarra conversa com o baixo, por assim dizer.
Johnny Marr: Fico muito feliz que você tenha notado, agradeço. Ninguém tinha mencionado isso antes. Obrigado, Felipe, de verdade.
TMDQA!: Eu que agradeço. Sou muito fã disso, e também fui muito fã do Andy [Rourke], que para mim é um dos maiores baixistas de todos os tempos. Tendo tocado com ele por tanto tempo, lá atrás, você acha que isso ajudou a criar esse seu estilo único de guitarra? Você estava ao lado dele e, claro, teve e tem outros grandes músicos por perto ao longo da carreira, que de certa forma o inspiraram a ter esse jeito de tocar com o baixo ao lado?
Johnny Marr: Acho que é uma via de mão dupla, sabe? Eu e o Andy passávamos todos os dias juntos quando éramos adolescentes, todos os dias mesmo. Quando arrumei minha namorada, o Andy estava comigo, e quando o Andy arrumou a namorada dele, estávamos todos juntos. Nós dois tocávamos todo dia, então meu estilo de guitarra se desenvolveu tocando com o Andy e o baixo do Andy se desenvolveu tocando com a minha guitarra.
Com o tempo, o outro momento que teve uma grande influência na minha maneira de tocar foi quando toquei com Isaac Brock no Modest Mouse, porque o Isaac é um guitarrista muito incomum. Pelo que me lembro, isso também fez muito bem ao meu jeito de tocar.
Nos meus discos solo, numa música como “It’s Time”, fui eu quem escreveu a linha de baixo. O baixista da minha banda, Iwan [Gronow], é um músico fenomenal, realmente ótimo, e o que ele faz é pegar as minhas linhas de baixo e tocá-las como um baixista de verdade. Como você provavelmente sabe, muitos guitarristas gostam de achar que sabem tocar baixo, só que não tocam como baixistas. [risos] Mas eu escrevo as linhas de baixo, sim.
E preciso dizer que o Andy e eu estávamos tocando juntos até nos meses antes de ele morrer. Ele esteve na minha casa, no estúdio… As linhas de baixo do Andy são tão próximas de mim que muitas vezes, quando estou tocando baixo, a não ser que eu esteja tentando tocar como Gary Jarman do The Cribs, o que também faço às vezes, acho que tenho, do meu jeito, um pouco do mesmo tipo de estilo do Andy, da maneira como ele abordava as coisas.
Mas eu nunca conseguiria copiar o Andy, Felipe, porque ele não era só tecnicamente brilhante, ele era muito imprevisível. Tenho muito orgulho dele.
TMDQA!: Ele era incrível. Eu ia dizer isso antes, mas fiquei com receio de que você não gostasse: sinto que muitas das linhas de baixo do disco soam inspiradas no Andy.
Johnny Marr: Fico feliz em ouvir isso. Muito feliz mesmo.
TMDQA!: Também precisamos falar da sua volta ao Brasil depois de mais de dez anos. Quais são as suas expectativas? Faz muito tempo que você não vem, então queria saber se guarda lembranças favoritas das últimas vezes por aqui. Elas foram bem próximas uma da outra, e depois veio esse intervalo tão grande!
Johnny Marr: Bom, falando nele de novo, o Andy tocou com a gente no Lollapalooza, o que foi um momento bonito. Mas só posso dizer o que todos os músicos britânicos dizem sobre visitar a América do Sul: o calor do público e essa coisa incrível que as pessoas fazem de cantar os riffs de guitarra… Outros amigos meus que têm bandas dizem a mesma coisa: vocês cantam os riffs. É impressionante.
Lembro que, quando tocamos em 2014, tínhamos uma música chamada “Upstarts” e, antes mesmo de eu começar a cantar o verso, a plateia já estava cantando o riff. Disso eu gosto muito, e também do jeito como as pessoas amam música de guitarra. A guitarra faz mesmo parte da cultura, obviamente.
TMDQA!: Faz mesmo. Ainda sobre o show: na hora de montar o setlist, você nunca fugiu de tocar músicas dos Smiths, mas agora tem um disco novo, muito bom por sinal, do qual acho que as pessoas vão gostar bastante. Deve ser um bom desafio organizar o repertório e equilibrar tudo. Como você está lidando com isso? Dá para adiantar algum spoiler do que vai tocar?
Johnny Marr: Essa também é uma boa pergunta, porque no fim das contas é um bom dilema. Tenho tantas músicas no repertório que não preciso tocar as dos Smiths se não quiser, mas eu gosto de tocá-las. Gosto porque é um grande privilégio para mim.
Agora, se eu não tivesse músicas do Electronic e músicas minhas, aí seria um problema, e eu provavelmente nem estaria fazendo shows se tudo girasse em torno da música que eu fazia há 40 anos. Então, é uma sensação boa. Se você vai ver o David Byrne, por exemplo, é bom que ele toque algumas músicas do Talking Heads. Tudo bem. Só não quero que ele faça um show inteiro de músicas do Talking Heads.
Estou empolgado para tocar com a minha banda as músicas novas do álbum, mas, como faz muito tempo que não vamos ao Brasil e à Argentina, com certeza vou tocar algumas antigas. Só não vou tocar apenas músicas antigas, de jeito nenhum. Seria muito chato para mim.
TMDQA!: Que ótimo. Espero muito que você leve “It’s Time” em consideração e coloque no setlist, é uma música incrível!
Johnny Marr: Obrigado. Fico muito feliz que você goste.
TMDQA!: Adorei você ter mencionado o Isaac, porque o Modest Mouse também é uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos, e acho incrível que você tenha feito parte dela por um período. Isso e outras coisas, como a turnê que você fez com o The Killers, mostram que você é um músico muito conectado à música, não importa quem a esteja fazendo. Na apresentação do álbum, você diz algo como “eu amo música pop, dos Beatles a Charli XCX”. Como é estar perto dessas pessoas, Modest Mouse, The Killers, gente que sem dúvida foi influenciada por você e pela sua música e acabar tocando com eles? Você tem noção do quanto é importante para elas, ou é algo natural para você?
Johnny Marr: Eu tenho noção, porque os músicos costumam ser muito generosos nos elogios e nas citações. Mas faço discos desde os 19 anos, sabe? Minha intenção é sempre tentar fazer o melhor que posso. Olhando de forma filosófica, acho que isso que você descreveu é até bom, ter algo a que fazer jus. Provavelmente é um desafio.
Nunca imaginei que lançaria uma música que eu considerasse casual ou fácil, mas não vejo isso como uma pressão. Além disso, um amigo meu é jogador de futebol e diz que a pressão é um privilégio. Então, se isso traz alguma pressão, provavelmente faz bem. Talvez um dia eu esteja no meu leito de morte e alguém pergunte: “Isso trouxe pressões indesejadas?”. E eu provavelmente vou pensar que fez bem, porque impede você de ficar confortável demais. Enquanto eu continuar fazendo discos de que as pessoas jovens gostem, está tudo certo.
Também não tenho nenhum tipo de trauma de competir com os Smiths, porque não dá para competir com um mito. Você não pode competir com a mitologia, nunca vai ganhar. Então eu olho em volta, para os meus pares, gente que também considero muito boa dentro da cultura e que respeito, como Franz Ferdinand, Modest Mouse, Gorillaz ou Noel Gallagher, pessoas que estão fazendo música, Charli XCX e outras bandas pop, e me pergunto: o que eu estou fazendo oferece uma alternativa e é tão bom quanto? É assim que eu meço o meu trabalho. Não ando por aí carregando nenhum fardo de 45 anos atrás, e também não me apoio nisso.
TMDQA!: Faz sentido demais! Johnny, muito obrigado pelo seu tempo. Acho que precisamos encerrar por aqui, mas foi um grande prazer.
Johnny Mars: Ok! Obrigado, Felipe, obrigado pela conversa.
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Fonte: TMDQA!