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Como a melancolia máxima de Leonard Cohen nos anos 1990 refletiu o clima sombrio da época

Por Equipe Editorial CifraNET · 25/06/2026
Como a melancolia máxima de Leonard Cohen nos anos 1990 refletiu o clima sombrio da época
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O início da década de 1990 nos Estados Unidos foi marcado por um cenário político e social turbulento, que encontrou uma expressão artística singular na obra do cantor e compositor Leonard Cohen. Em 1992, enquanto o país assistia à eleição de Bill Clinton, um presidente que simbolizava uma nova esperança progressista após mais de uma década de governo republicano, a realidade mostrava-se muito mais complexa e sombria. A euforia inicial foi profundamente abalada por eventos como os distúrbios em Los Angeles, desencadeados pelo veredicto de inocência aos policiais brancos filmados agredindo o motorista afro-americano Rodney King, e por uma recessão econômica que anunciava tempos difíceis. Nesse contexto, a música americana refletia uma crise de identidade e uma sensação de desilusão. O gangsta rap de Los Angeles e Nova York, assim como o rock angustiado de Seattle, capturavam o espírito de uma sociedade que tentava se recompor após os excessos dos anos 1980. Leonard Cohen, que já havia retomado sua carreira com o álbum "I'm Your Man" em 1988, sentiu-se particularmente inspirado por esse ambiente caótico, especialmente vivendo em Los Angeles, onde testemunhava desastres naturais e conflitos sociais de perto. Conhecido desde os anos 1960 como um "príncipe das trevas" da música folk, Cohen era frequentemente convidado a "animar-se" por amigos e fãs, um conselho que ele sempre rejeitou, afirmando em 1992 que essa era uma saudação inadequada para alguém que já convivia com uma visão realista e profunda da existência humana. Para Cohen, encarar a escuridão era uma forma de manter o equilíbrio emocional, permitindo-lhe observar o mundo com uma distância que evitava tanto o desespero quanto o otimismo ingênuo. Em 24 de novembro de 1992, poucas semanas após a eleição de Clinton, Cohen lançou seu nono álbum de estúdio, "The Future". Este trabalho, um dos mais extensos de sua carreira, trazia uma coleção de músicas que passaram por longos processos de criação e revisão. A faixa-título, "The Future", destacava-se como uma peça central do álbum, oferecendo uma visão satírica e devastadora do que estava por vir, com uma sonoridade que combinava elementos de soul gótico e um coro gospel sério, contrastando fortemente com o tom otimista do tema de campanha de Clinton, "Don't Stop Thinking About Tomorrow", do Fleetwood Mac. Na canção, Cohen expressa um pessimismo contundente: "Devolva-me o Muro de Berlim, devolva-me Stalin e São Paulo / Eu vi o futuro, irmão / É assassinato". Diferente dos rappers que narravam a realidade fragmentada ao seu redor ou dos cantores grunge que exploravam crises pessoais, Cohen elevava a crítica a uma escala global, abraçando a inevitabilidade da destruição humana com resignação e ironia. O refrão "As coisas vão deslizar em todas as direções / Não haverá mais nada que possamos medir" sintetiza essa sensação de caos e perda de controle. "The Future" representou para Cohen, então com 58 anos, uma espécie de momento punk anarquista, substituindo a fúria juvenil por uma aceitação cansada do destino coletivo. A repetição da palavra "arrependam-se" na música sugere uma reflexão sobre a perda de valores morais, mas Cohen interpretava isso mais como um esquecimento compartilhado, semelhante ao declínio do Império Romano, quando conhecimentos espirituais valiosos foram perdidos. Em entrevista à revista Song Talk em 1993, ele explicou que conceitos como redenção, arrependimento e ressurreição foram abandonados pela sociedade contemporânea. Falando ao Entertainment Weekly logo após o lançamento do álbum, Cohen reconheceu que seu tom sombrio parecia ressoar com o espírito da época: "Uma catástrofe aconteceu, mas agora estamos esperando pela inundação", referindo-se tanto aos distúrbios de Los Angeles quanto ao clima geral de violência e destruição latente. Ele afirmou ainda que essa sensação de desespero já fazia parte da psique coletiva, algo que vinha dizendo há muito tempo, ressaltando que "a condição humana não tem solução" e que "fomos expulsos do paraíso". Apesar da ausência de hits comerciais típicos de verão, "The Future" foi um sucesso surpreendente, vendendo mais de um milhão de cópias mundialmente. Esse êxito pode ter sido impulsionado pelo reconhecimento crescente de Cohen entre artistas e públicos mais jovens, especialmente após o lançamento do álbum tributo "I'm Your Fan" em 1991, que contou com versões de suas músicas por nomes como Nick Cave, REM, Pixies e Ian McCulloch. A influência de Cohen também se manifestou em bandas populares da época, como o Nirvana. Kurt Cobain, vocalista da banda, chegou a mencionar que ouvir Leonard Cohen durante seus momentos de depressão apenas aprofundava seu estado, e a letra da música "Pennyroyal Tea" (1993) faz referência direta ao cantor: "Me dê um pós-vida Leonard Cohen / Para que eu possa suspirar eternamente". Após a morte de Cobain, Cohen expressou arrependimento por nunca tê-lo conhecido, comentando sobre as alternativas de superação que via em pessoas do Zen Centre, onde frequentava. Embora "The Future" carregue uma aura de pessimismo, o álbum como um todo não é inteiramente sombrio. Uma das faixas mais emblemáticas, "Anthem", traz uma mensagem de aceitação e perdão, com a famosa frase "Há uma rachadura em tudo / É assim que a luz entra". Em entrevista à Reuters em 1993, Cohen explicou como sua visão fatalista da sociedade convivia com uma paz interior, dizendo que vive em um estado constante de pânico, mas que aprendeu a conviver com ele, considerando-o seu "paisagem natural". Assim, a melancolia profunda que marcou a fase mais sombria de Leonard Cohen nos anos 1990 não apenas refletiu o clima cultural e social daquele período, mas também consolidou sua posição como um artista capaz de transformar o desespero coletivo em arte atemporal, que continua a ressoar com novas gerações.
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