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Ao TMDQA!, Pretinho da Serrinha comenta detalhes do projeto "Batuke" e enaltece os mestres do Samba

Por Equipe Editorial CifraNET · · 15 min de leitura
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Ao TMDQA!, Pretinho da Serrinha comenta detalhes do projeto "Batuke" e enaltece os mestres do Samba

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Crédito: Fernando Young

Pretinho da Serrinha vai dar início à primeira turnê nacional do seu projeto Batuke, que teve uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro.

O evento, que conta com uma roda de samba liderada pelo talentoso músico carioca e recebe artistas de diferentes gerações e vertentes musicais, passará por dez cidades brasileiras entre setembro de 2026 e janeiro de 2027.

A estreia da turnê do Batuke do Pretinho da Serrinha acontece neste sábado, 10 de outubro, no Trapiche Barnabé, em Salvador. Para tornar a noite ainda mais especial, o cantor e compositor vencedor de três Grammys Latino irá receber no palco Mariene de Castro e Nelson Rufin, grandes representantes do samba baiano.

Em entrevista ao TMDQA!, Pretinho explicou que levar o Batuke para outras regiões do país vai além de apresentar o espetáculo a novos públicos. “É espalhar, né? Espalhar nossa música, espalhar nossa cultura e colher também informações e aprender também, porque a ideia é sempre troca”, afirmou o músico, destacando a importância de criar conexões com artistas e culturas locais ao longo da estrada.

Essa proposta de troca é um dos direcionamentos fundamentais do projeto, que já recebeu nomes como Caetano Veloso, Marisa Monte, Martinho da Vila, Milton Nascimento e Seu Jorge.

Para Pretinho, os encontros precisam ter uma conexão genuína, independentemente do estilo musical dos convidados. “No Batuke nunca vem alguém que eu nunca falei, que eu nunca tive contato, que eu nunca trabalhei”, contou ao TMDQA!, ao explicar que a amizade e a afinidade ajudam a construir apresentações espontâneas, abertas a novas leituras do samba.

Segundo Pretinho, a escolha dos convidados também reflete o compromisso do músico em valorizar os mestres que abriram caminhos para as novas gerações do samba:

A gente tem essa obrigação de cuidar deles. […] A gente tem que fazer enquanto eles estão aqui”.

Depois de passar por Salvador, a turnê do Batuke segue para Olinda (PE), em 11 de outubro, na Mansão Matuta. Em novembro, o projeto chega a Florianópolis (SC), no dia 15, no Stage Music Park, e a Vitória (ES), no dia 20, e Porto Alegre (RS), no dia 29, com locais ainda a serem anunciados. Já em dezembro, a apresentação acontece em Brasília (DF), no dia 5. A turnê se encerra em janeiro de 2027, com shows em Campinas (SP), no dia 23, e Santos (SP), no dia 24, também com locais a confirmar. Os ingressos disponíveis já podem ser adquiridos neste link.

TMDQA! Entrevista Pretinho da Serrinha

TMDQA!: Depois do Batuke ter feito sucesso no Rio, qual é a sensação de pegar a estrada com esse projeto e conseguir ampliar o público dele?

Pretinho: É espalhar, né? Espalhar nossa música, espalhar nossa cultura e colher também informações e aprender também, porque a ideia é sempre troca, né? A ideia nunca é chegar num lugar, fazer o seu show, tipo circo, chega lá, arma lá, faz o seu show e vai embora, não. Nossa ideia é chegar e levar alguma coisa também. Por isso, a gente tá sempre convidando artistas locais, sempre tentando fazer essa troca de informação. Às vezes, pegando alguém da plateia que não tem nada combinado e chamando pro palco. Mas, assim, a gente vai absorvendo coisas, vai aprendendo coisas e você não fica um corpo estranho no local, sabe? Você se sente parte também daquele local, você se sente parte daquele lugar. Acho que a ideia é essa.

E a sensação também boa é passar por lugares que eu nunca passei, né? Eu tô indo pra lugares que eu nunca fui. Eu nunca fiz um show em Olinda. Fiz um show em Olinda com o Seu Jorge, nunca fiz um show em Juiz de Fora, estou indo para lugares que eu nunca tinha ido. Acho que é a segunda vez que eu faço um show em Salvador, meu. Mas, tirando Salvador, são lugares que eu nunca passei.

TMDQA!: A sua formação musical passa por diferentes frentes, desde as rodas de samba até a bateria do Império Serrano e a construção de obras com lendas da MPB, como que essas experiências se refletem no que você apresenta no Batuke?

Pretinho: É tipo um liquidificador, né? Joga tudo ali dentro e aí, no final, faz uma mistura e aquela mistura forma uma coisa só. Acho que eu sou muito isso, assim. Eu vou juntando as experiências, sabe? Eu vou juntando o que eu aprendi com um, o que eu aprendi com o outro. O que se deve fazer, o que não deve fazer. De cada artista eu tiro uma coisa. Esse aqui eu vou fazer isso, desse aqui eu não posso fazer isso. E a vivência mesmo da rua também, eu fui criado na rua. A minha escola é a rua. Eu até estudei música depois de um tempo, mas eu começo na rua. Começo tocando música com a voz de rua, aprendendo olhando, ouvindo.

Tem situações que a rua me salva. Você chega num lugar que está desfavorável total, por exemplo, você vai tocar num corporativo, tem um aniversário de alguém, um casamento de alguém. Você chega ali, é tudo diferente. Você está indo pelo samba, está todo mundo em volta, tem aquela festa, todo mundo tomando uma cerveja, todo mundo pelo casamento. Casamento até então, todo mundo ainda arrumadinho, salto alto, vestidos longos e tal. Você chega ali, você fica pensando assim: “cara, como é que eu vou virar esse jogo? Como é que eu viro esse jogo?” E a pessoa que me contratou, certamente ela foi num samba, viu, me viu, viu aquela coisa animada, aquela festa. Ela acha que vai ter aquilo ali no casamento dela. E ela quer ter aquilo ali. Ela vai achando, então ela vai ter expectativa. E aí você pega naquela hora ali, você fala assim: “meu irmão, como é que eu viro isso?” Aí você tem que voltar lá na rua. Aí você vai na cabeça, naquela mistura que você fez ali, vai tirando da cartola, vai tirando. E é isso, é a experiência, é a vivência mesmo, sabe, que salva a gente, é a vivência, é a experiência que você adquiriu ao longo dos anos mesmo. E nessa você vai se salvando e vai, vai, vai, vai. E é assim que eu vou, eu vou levando a vida assim.

TMDQA!: E um aspecto muito interessante desse projeto são os encontros que ele proporciona né? Você sempre recebe convidados de diversos estilos, o que você procura nesses encontros para que eles façam sentido dentro do Batuke?

Pretinho: Primeiro amizade, né? No Batuke nunca vem alguém que eu nunca falei, que eu nunca tive contato, que eu nunca trabalhei, que eu nunca encontrei no estúdio, troquei uma ideia. Às vezes, não necessariamente um amigo, mas, pô, já gravamos um negócio, encontramos num show, pô, vamos lá. Uma vez, o Paulo Ricardo, por exemplo, peguei o cara mais distante, assim, do meu samba. Encontrei com ele no aeroporto. Ele falou: “Pô, ouvindo falar do seu samba, queria um dia lá, mas roqueiro”. Eu falei: “Tá tudo certo! Vamos lá, vamos lá no samba”. O empresário dele é meu amigo. A gente marcou, ele foi lá e foi bonzaço, sabe? Que a gente pega ali, traz tudo pro samba também. Eu já tenho os caminhos ali, tudo na hora, tudo meio que no improviso, mas foi uma energia incrível. Então, tem que ter um mínimo de relação, sabe? Não é qualquer um que chega lá porque “Ah, o cara é famoso”, não, ele não é nosso amigo, ele não tem uma conexão com a gente, vamos esperar outro momento. Então, o princípio de tudo é amizade. Tem que ter alguma ligação ali com a gente.

TMDQA!: E Pretinho, você falou sobre esse encontro com o Paulo Ricardo. Eu ia te perguntar exatamente isso, se teve alguma parceria que te surpreendeu ou que te marcou durante esse projeto?

Pretinho: Esse foi um, porque é muito distante da gente. Até a Marisa ali, tá fácil. Marisa, pô, a minha parceira de música, a gente toca junto. O Caetano, mesma coisa, parceiro, Seu Jorge, 20 anos tocando junto. Também trabalhei com Lulu, Maria Rita, tudo gente também do meu mundo que eu trabalhei. E o Paulo Ricardo, não, é um cara que a música dele não tem a ver comigo, sabe? Eu nunca ouvi a música dele… ouvi porque é muito sucesso. Batia no rádio, assim, a gente acaba ouvindo. Rádio, você ouve de tudo, mas é muito longe do meu mundo. E deu uma liga, foi muito bom, sabe, foi muito.

Qualquer outro que eu falar, Djavan, o Gilberto, tudo gente que eu ouvi muito. O Chico, O meu sonho ainda falta Djavan. Eu até fiz agora o Chico, o Djavan e o Gil, mas em um outro projeto de um leilão que a gente fez. Os dois cantaram comigo. Mas o meu sonho é ter eles no samba. Falta Chico, Gil e Djavan. Mas o Paulo Ricardo foi uma coisa muito longe, mas deu muito certo. Foi surpreendente pra todo mundo. Quando eu chamei, todo mundo que tava ali falou assim: “Puta, Pretinho está passando dos limites”. Mas todo mundo se surpreendeu. Ele cantou uma música dele, ele cantou um Djavan, cantou o “Flor de Lis”, cantou “Olhar 43”, é claro. Ele foi malandro também, ele cantou uma música dele ali que eu já trouxe pro samba. Ele cantou dois, pô, cantou “Baile” do Djavan e ficou bonito. Mas eu não me surpreendo que eu já sabia que ia dar certo. Eu não deixo ninguém em furada também.

Isso é uma coisa também que faz muitas pessoas irem no meu samba, assim, porque nenhum artista gosta de ir pra um lugar sem ensaio, ninguém quer se expor. Mas Betânia, Betânia não faz nada sem ensaio, Marisa não faz nada sem ensaio, e comigo elas vão. A Betânia foi, sabe, sem ensaio, sem nada, sem nada. Combinou só as músicas que eu organizei aqui e tal. Confesso que, no dia dela, eu organizei um pouco mais, porque normalmente eu faço na hora. No dia dela, eu organizei um pouco. A Betânia não faz nada sem a banda dela, foi a primeira vez. Ai numa semana ela fez comigo, na semana seguinte ela fez com Paulinho da Viola, depois Chico Chico. Eu falei: “Eu abri a porteira da participação da Betânia”. Ela não faz e foi e deu certo. Então, eles têm essa confiança em mim. Todo mundo que chega, eu vou organizar. Na hora que esse artista chegar no palco ali, eu saio do meu papel de artista e viro diretor musical, sabe? É isso que eu faço. Eu não tenho esse ego: “Tô aqui no meu show, vou ficar do tamanho da Bethânia”. Não vou ficar do tamanho da Betânia, não vou ficar do tamanho da Betânia. Eu tenho que morrer, nascer, morrer, nascer. Eu viro maestro ali, eu vou organizando. Eles nem percebem como é que o negócio tá dando certo, mas eu tô aqui, né? E aí, eles saem bem, eles saem felizes do palco, sabe? Pô, foi lá, o negócio foi bonito. E o artista gosta de ter esse risco, que eles não querem correr, mas, pô, vou ali correr com o Pretinho que vai dar certo. Quando eles saem disso, mesmo sendo eles do tamanho que eles são, isso é um desafio pra eles. Isso é um desafio pra Betânia, e cantar um lugar sem a banda dela, num público que não é o dela, e ela chegar ali, ela vê que tudo é dela. O Caetano sempre sai feliz, assim. Ele fala: “É muito bom quando eu vou cantar com a sua turma”. Betânia, no dia seguinte, mandou a mensagem que eu vou enquadrar a mensagem que ela mandou, de felicidade. Então, essa é a minha alegria. Eu troco de lugar. Na hora que essa galera chega, eu troco de lugar, eu tiro todo o meu ego ali e vou ser o diretor feliz da vida ali.

TMDQA!: E aqui em Salvador eu tenho certeza que vai ser muito bom também. Você vai receber a Mariene de Castro e o Nelson Rufino. O que você pensou quando imaginou esses dois nomes dentro da proposta do Batuke? Como eles vão somar nessa experiência?

Pretinho: Mariene é minha amiga de muitos anos, sou padrinho de casamento da Mariene A gente viajou juntos, fizemos turnê junto, Prêmio da Música. Eu produzi uma faixa agora, uma música do Djavan, que ela cantou. Mariene é minha amiga, assim, ela chegou aqui em casa ano passado “Ah, eu queria gravar”. A gente foi pro estúdio no dia seguinte, a gente cantou rapidinho, a gente gravou e lançou. É desse jeito, a gente é muito amigo.

E o seu Nelson, ele é parceiro do Zé Luiz do Império, que é da minha escola de samba aqui no Rio. Eles fizeram muito sucesso, “Tempo Rei”, “Todo Menino é um Rei”, conheci pelo Roberto Ribeiro, que também é daqui. Então, eu sempre soube desse nome, Nelson Rufino, que as músicas que o Roberto Ribeiro gravava, junto com o Zé Luiz do Império. Mas não sabia quem era. Aí, quando o Zeca começa a gravar o Nelson Rufino, que explode a música do Nelson Rufino, é “Verdade”, e outros, eu já começo a me ligar mais nele. Depois a gente começa a ter amigos em comuns. Inclusive, na minha banda tem uma baiana, a Marizela, que é de Feira de Santana, que é muito amiga dele. Tem dois baianos na banda, a Marizela e o marido dela, o Piriquito, de Feira de Santana. Ela é muito amiga dele, e ele sempre falava: “Pô, adoro aquele menino, eu gosto daquele menino, preciso encontrar com ele”. Aí, um dia a gente conseguiu falar por telefone, que também falar com o Nelson Rufino por telefone, é outra… Aí, aquela resenha, meu filho: “Eu gosto de você, você faz um trabalho”. Eu falei: “Tem que fazer alguma coisa junto”. Ele falou: “Por favor”. Aí rolou a oportunidade de fazer o primeiro de fevereiro, em Salvador, um dia antes da festa, que foi na rua. Acho que foi no Comércio, perto do Mercado Modelo. Foi incrível, foi incrível, porque as músicas dele… ele é um orixá, sabe? A caneta dele, a caneta dele é violenta. E ele, quando chega ele traz uma paz, traz uma energia.

E aí quando pintou de ir pra Salvador de novo eu falei “Vou chamar”, porque assim eu tenho uma responsabilidade, e uma gratidão muito [grande, por esses que vieram na nossa frente. Nelson Rufino, Leci Brandão, os véi que a gente chama, nossos véi, porque eles fizeram muito por nós. Eles que pavimentaram isso. Eles pegaram o chão de terra, esburacado, sabe, e cimentaram tudo, botaram tudo bonitinho, a gente chegou com o negócio todo asfaltadinho. Não foi fácil, mas a gente pegou asfaltado, eles pegaram no buraco. Então, a gente tem essa obrigação de cuidar deles. Eu me preocupo muito com isso. Quem é que fica chamando? O pessoal quer chamar um novo aí, estourado. Quem quer chamar o compositor? Nelson Rufino é um compositor. As pessoas não querem fazer. Mas eu quero, eu quero chamar Nelson Rufino, Leci Brandão, eu quero chamar nossos véi, que estão aí ainda. A gente tem que fazer enquanto eles estão aqui, sabe? Porque daqui a pouco é a lei da vida, eles vão embora e a gente não vai ter mais eles. Vai ficar só: “Ah, por que que não fez?” Eu faço agora, sabe? Eu tenho essa preocupação.

Então, toda vez que eu for pra Bahia, que o Nelson Rufino estiver por aí, eu vou chamar. Eu tentei chamar o Lazzo também, o Lazzo Matumbi, que é um outro que eu adoro, mas o Lazzo ficou arrasado, porque ele tem show no outro dia, ele ficou arrasado. Mas é a turma que eu quero chamar, sabe? Eu quero sempre estar perto desses professores, porque a gente aprende muito perto deles. Uma coisa é você ouvir, outra coisa é você estar do lado. E eu faço questão de ter essa aula sempre com eles.

TMDQA!: Eu vi em uma entrevista você comentando que conseguiu atingir tudo aquilo que você desejava, incluindo já ter tocado com os maiores artistas brasileiros. Pensando nesse cenário, o que te motiva a continuar produzindo, a estar no palco, a liderar projetos como o Batuke?

Pretinho: Meu motivo de produzir, fazer música, é uma coisa mesmo de responsabilidade, de manter o legado dessa turma toda que a gente falou aí, do Zeca, do Arlindo, do Jorge Aragão, da Done Ivone Lara, da Bete Carvalho, da Alcione, sabe, Martim, Fundo de Quintal, meus professores. Eu acho que a gente tem essa responsabilidade de manter porque esse negócio digital aí é muita coisa, muita música, muita informação. O jovem não tem paciência mais. Ouviu aqui, 30 segundos, vai pra outra, tá tudo na mão.

Fonte: TMDQA!

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