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As redes sociais viraram consultório improvisado para milhões de jovens em busca de respostas sobre ansiedade, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), autismo e outros transtornos mentais. O problema é que boa parte dessas respostas pode estar errada.
Uma revisão sistemática publicada em março no Journal of Social Media Research analisou a qualidade e a precisão das informações de mais de 5 mil postagens sobre saúde mental em plataformas como TikTok, YouTube, Instagram, Facebook e X. A conclusão: até 56% desses conteúdos eram imprecisos ou sem fundamento.
O TikTok apareceu como principal foco de desinformação, com destaque para TDAH e transtorno do espectro autista (TEA), com 52% e 41% dos vídeos contendo erros, respectivamente. Na média geral, a rede social chinesa concentrou 34,56% de desinformação sobre saúde mental e neurodivergência. Segundo os pesquisadores, fatores específicos da plataforma, como sistemas algorítmicos e moderação de conteúdo, podem influenciar a disseminação de desinformação.
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"Saúde mental é um campo complexo, com nuances diagnósticas importantes, que não se traduzem bem em formatos de poucos segundos. O resultado é uma compressão da ciência, em que conceitos sofisticados são transformados em listas simplistas ou identificações rápidas, aumentando o risco de distorção", aponta o psiquiatra Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita. "Há uma tendência de romantização ou de banalização do diagnóstico, provocada exatamente por essa desinformação das redes sociais."
Os conteúdos curtos tendem a ser mais persuasivos, porque condensam experiências subjetivas complexas em narrativas rápidas, emocionais e de fácil conexão. O impacto na audiência jovem pode ser ainda maior. "Entre eles, isso se soma a uma fase do desenvolvimento marcada por busca de identidade, comparação social, necessidade de pertencimento e sensibilidade à validação de pares", observa a psicóloga Karen Szupszynski, professora da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Toque agora.
Impactos vão além do autodiagnóstico errado
De acordo com Zoldan, cresceu o número de pacientes que chegam com hipóteses fechadas baseadas em vídeos. Entre as consequências desse autodiagnóstico podem estar aumento de ansiedade, busca por tratamentos inadequados, frustração com intervenções ineficazes e atraso na identificação correta do quadro.
"Quando os pacientes chegam convencidos de diagnósticos incorretos, há necessidade de desconstrução inicial e bastante reeducação, trazendo um pouco mais de complexidade para a consulta", afirma o psiquiatra. "Por outro lado, algumas pessoas passam a buscar ajuda mais cedo, o que é positivo."
Publicações imprecisas ou enganosas podem levar ainda a outras consequências, como a discriminação antecipatória, em que a pessoa nem tem o diagnóstico e se rotula negativamente, trazendo um medo de estigma e preconceito. Isso, às vezes, acaba retardando a busca por atendimento profissional.
A patologização de comportamentos comuns é outro problema: distração, procrastinação, introversão, necessidade de rotina ou interesses específicos acabam se transformando em "sintomas" de transtornos como TDAH ou TEA.
"A diferenciação clínica desses quadros exige três pilares fundamentais: intensidade dos sintomas, persistência ao longo do tempo e prejuízo funcional na vida do paciente", explica o psiquiatra. Ou seja, lapsos atencionais que não geram impacto no cotidiano não são um TDAH. Incomodos com ruídos específicos, seletividade alimentar pontual e dificuldades ocasionais em sociabilização que não trazem repercussão funcional não são um TEA nível 1 de suporte.
"O risco das redes sociais é transformar traços cotidianos em marcadores centrais de um diagnóstico, apagando conexões essenciais, que diferenciam problemas de transtornos", alerta Szupszynski. Ela recomenda desconfiar de vídeos que prometem diagnósticos rápidos ou utilizam fórmulas como "se você faz X, então tem Y." Conteúdos mais seguros costumam reconhecer limites e nuances, citar fontes verificáveis e diferenciar características comuns de transtornos, além de mencionar impacto funcional, recomendar avaliação profissional e evitar certezas absolutas.
"Priorize conteúdos de fontes confiáveis e profissionais qualificados, evitando conclusões baseadas em vídeos curtos", orienta o médico do Einstein. Redes sociais podem servir como porta de entrada para informação e reflexão, mas não substituem consulta, escuta clínica e diagnóstico profissional.
O que diz o TikTok
Em nota enviada à Agência Einstein, o TikTok afirmou reconhecer o valor da plataforma como espaço de diálogo sobre saúde e neurodiversidade e disse levar a sério a responsabilidade de manter esse ambiente seguro.
A empresa informou que incentiva usuários a procurar aconselhamento médico profissional e que sua política sobre desinformação em saúde proíbe conteúdos que possam causar danos significativos.
Segundo a plataforma, no quarto trimestre de 2025, 99,2% dos conteúdos que violavam diretrizes sobre desinformação foram removidos proativamente, assim como 99,7% dos conteúdos que infringiam políticas ligadas à saúde mental e comportamental.
O TikTok diz ainda que conta com parceiros independentes de checagem de fatos, orientação de autoridades de saúde pública e um banco de dados de alegações previamente verificadas para avaliar a precisão do conteúdo.
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Fonte: CNN
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