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Ebola: por que ainda não há vacinas para a doença? Entenda

O surto de Ebola em rápida expansão na República Democrática do Congo chamou a atenção do mundo há pouco mais de uma semana ao ser o terceiro maior registrado na história. Este é o 17º surto com o qual o país lida desde...

Publicado em 26/05/2026 11 min de leitura
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Ebola: por que ainda não há vacinas para a doença? Entenda
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O surto de Ebola em rápida expansão na República Democrática do Congo chamou a atenção do mundo há pouco mais de uma semana ao ser o terceiro maior registrado na história. Este é o 17º surto com o qual o país lida desde que o vírus foi descoberto em 1976.


O Ebola pode ser fatal em até 25% a 90% das pessoas infectadas. Cientistas estão agora correndo para desenvolver novas vacinas e tratamentos potenciais que possam ajudar a conter esse surto, mas as autoridades enfatizam que, atualmente, não há nenhum aprovado. Por quê?


Um vírus menos comum
O surto atual é causado pela cepa Bundibugyo, que também esteve associada a dois surtos anteriores. Um em 2012 no RDC, que teve 38 casos confirmados em laboratório e 13 mortes, e outro em 2007 na fronteira entre o RDC e Uganda, que teve 131 casos relatados e 42 mortes.

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As infecções por Ebola são muito mais comumente causadas pela cepa Zaire, que impulsionou os maiores surtos da história: um de 2014 a 2016 na África Ocidental e outro na República Democrática do Congo de 2018 a 2020. Esses surtos mataram cerca de 11.000 e mais de 3.000 pessoas, respectivamente.


Uma vacina foi desenvolvida durante o surto na África Ocidental e testada com sucesso lá em 2015. Chamada Ervebo, ela foi aprovada pela US Food and Drug Administration em 2019 e autorizada em vários países da Europa e da África. Mas esse trabalho não se estendeu a outros tipos de Ebola.


A vacina existente poderia ser usada neste surto?
Isso tem sido considerado, de acordo com a Dra. Anne Ancia, representante da Organização Mundial da Saúde na RDC. Mas há informações limitadas sobre a eficácia da imunização direcionada contra a cepa Bundibugyo, além de incertezas sobre sua segurança.

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"Fico feliz por não ser o clínico que precisa tomar essa decisão", disse o Dr. Thomas Geisbert, professor do Departamento de Microbiologia e Imunologia da University of Texas Medical Branch, que pesquisa intervenções para o Ebola e vírus semelhantes.


Ele e outros pesquisadores demonstraram em 2011 que uma vacina semelhante à Ervebo ofereceu proteção contra o Bundibugyo em macacos, mas foi um teste pequeno, utilizando apenas quatro animais, por razões éticas e financeiras, disse ele à CNN.


Os especialistas administraram a dose direcionada ao Zaire nos animais e, 28 dias depois, os expuseram ao segundo vírus. Três dos quatro foram protegidos. "É encorajador", declarou Geisbert. Mas modelos sugerem que o Bundibugyo pode ser menos letal do que o Zaire e, em macacos, 25% podem sobreviver sem vacinação.


Por isso, ele estima que os dados limitados disponíveis indicam que a imunização poderia oferecer talvez 50% de proteção contra a nova cepa, mas análises maiores são necessárias. E o desafio do uso desse imunizante no surto atual é "a questão dos U$S 64 mil (cerca de R$ 320 mil) . Você está em apuros se agir e em apuros se não agir, certo?", disse Geisbert.


Uma das preocupações é que uma vacina que desvia a atenção do sistema imunológico para um tipo diferente de Ebola poderia interferir na resposta do organismo caso ele já tivesse sido exposto ao Bundibugyo, afirma o médico. "Você não quer piorar as coisas", disse.


A cientista-chefe da OMS, Sylvie Briand declarou na sexta-feira (22) que, por haver "pouquíssimas evidências de proteção cruzada para o Bundibugyo", a Ervebo não é considerada a principal opção de abordagem vacinal.


A Merck, fabricante do tratamento, informou que forneceu mais de 500.000 doses ao longo dos últimos cinco anos para um estoque global de vacinas contra o Ebola, e que trabalharia com a Unicef e o International Coordinating Group on Vaccine Provision para continuar a mantê-lo. A empresa também afirmou que poderia produzir mais doses caso seja decidido que a Ervebo deve ser utilizada no surto atual.


E novas vacinas?
Tanto a pandemia de Covid-19 quanto a epidemia de Ebola de 2014 na África Ocidental provaram que o mundo é capaz de desenvolver vacinas em prazos acelerados em situações de emergência. Esse trabalho também está em andamento agora.


A abordagem mais promissora é uma vacina experimental semelhante à Ervebo, mas direcionada para o Bundibugyo, disse o Dr. Vasee Moorthy, assessor sênior da OMS responsável por supervisionar um plano de pesquisa e desenvolvimento. O imunizante fornece uma proteína da doença usando outro vírus - o da estomatite vesicular - para ensinar o sistema imunológico a reconhecê-la.


Geisbert disse que também obteve resultados encorajadores com essa abordagem para o Bundibugyo em primatas não humanos, constatando que uma única dose da vacina experimental, com exposição ao vírus 28 dias depois, proporcionou "proteção completa; os animais nem chegam a adoecer".


O especialista também contou que a vacina funcionou em animais como tratamento pós-exposição, de forma semelhante ao uso da vacina contra a raiva. O problema é que o material de grau clínico para testes em humanos ainda não está disponível e deve levar de seis a nove meses para ficar pronto, completou Moorthy em uma reunião de briefing na quarta-feira. "Isso precisa ser priorizado como a candidata a vacina mais promissora contra o Bundibugyo", acrescentou.


O grupo de pesquisa biomédica sem fins lucrativos IAVI, que trabalhou para desenvolver vacinas usando a mesma tecnologia de VSV recombinante para vírus semelhantes, informou no mesmo dia que está "priorizando um candidato investigacional de rVSV Bundibugyo no contexto do surto atual" e trabalha para reunir financiamento.


A Merck também declarou estar "explorando como podemos apoiar os esforços de resposta... incluindo possíveis colaborações com organizações de saúde global e de pesquisa em pesquisa e/ou desenvolvimento de vacinas".


Outra vacina está em desenvolvimento, usando a mesma tecnologia da Universidade de Oxford/AstraZeneca para a Covid-19. Ela poderia ser ampliada mais rapidamente, mas conta com menos evidências que a sustentem.


Quando utilizada durante a pandemia de Covid-19, a vacina foi associada a um risco raro de coágulos sanguíneos; Oxford observa que, para uma doença como o Ebola, "onde até nove em cada 10 pessoas infectadas podem morrer, o risco muito pequeno de coágulos sanguíneos é superado pela proteção que uma vacina pode oferecer".


Oxford também afirmou que a imunização contra a Covid estimou ter salvo 6 milhões de vidas apenas em 2021. A nova variante utiliza um vírus diferente, um adenovírus, para fornecer instruções genéticas que treinam o sistema imunológico a reconhecer a proteína do vírus Ebola. As doses poderiam estar prontas para ensaios clínicos em humanos em apenas dois a três meses, por meio de uma colaboração entre Oxford e o Serum Institute of India, disse Moorthy.


"Eles estão fabricando isso enquanto falamos", mas os dados em animais que asseguram a vacina ainda não estão disponíveis, afirmou ele. Esses resultados influenciarão "se isso é considerado um candidato promissor de vacina de pesquisa para Bundibugyo".


Existem medicamentos que ajudam?
Os ensaios terapêuticos poderiam começar mais cedo, disse Moorthy, porque alguns medicamentos existentes podem ajudar contra o Bundibugyo. "Certamente há esperança ao longo do caminho", disse ele na semana passada.


Atualmente, estão sendo consideradas "abordagens de amplo espectro que podem funcionar em múltiplas espécies do vírus Ebola", já que há menos opções direcionadas especificamente ao Bundibugyo, disse a Dra. Amanda Rojek, professora associada de emergências de saúde no Epidemic Diseases Research Group do Pandemic Sciences Institute de Oxford.


Entre elas estão o antiviral remdesivir, fabricado pela Gilead Sciences e aprovado para a Covid-19 como Veklury, e um coquetel de anticorpos monoclonais da Mapp Biopharmaceutical chamado MBP134, mencionou ela.


Um aspecto complicado desses medicamentos é que frequentemente são administrados por infusão intravenosa, o que pode ser logisticamente mais difícil em uma área de difícil acesso, como a província de Ituri, na RDC, onde o surto atual está concentrado.


Geisbert concordou que o MBP134 "é provavelmente o que tem os melhores dados pré-clínicos no momento", demonstrado em um de seus estudos como capaz de proteger macacos mesmo quando administrado em um estágio avançado da doença.


O tratamento demonstrou proteção contra o Bundibugyo, bem como contra as cepas Zaire e Sudão do Ebola. Os anticorpos são gerados como parte da resposta imunológica do organismo a invasores como vírus, e o MBP134 é uma combinação de dois anticorpos provenientes de um sobrevivente do surto de Ebola de 2014, de acordo com a Mapp.


A fabricante de medicamentos Regeneron também possui um coquetel de anticorpos aprovado para o Ebola, chamado Inmazeb. Um dos três anticorpos da combinação demonstrou atividade contra o Bundibugyo, mas não foi testado em animais ou pessoas, disse um porta-voz da empresa à CNN.


Cientistas da OMS afirmaram na sexta-feira que o anticorpo da Regeneron e o MBP134 estão sendo priorizados para ensaios clínicos. Eles também estão analisando o uso de um antiviral semelhante ao remdesivir, chamado obeldesivir, para profilaxia pós-exposição em pessoas consideradas contatos de alto risco de pacientes com Ebola.


Este medicamento tem a vantagem adicional de ser administrado por via oral, em vez de intravenosa. "Isso impediria que esses contatos, caso tenham sido infectados pelo vírus, [desenvolvessem] a doença", disse Briand, da OMS, na sexta-feira.


O governo dos EUA está apoiando o desenvolvimento de medicamentos e vacinas?
Historicamente, os Estados Unidos têm sido um dos principais financiadores de ensaios durante emergências de saúde, mas o governo Trump reduziu o apoio a programas de ajuda global. A Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado, ou Barda , apoiou o desenvolvimento da Ervebo, bem como de medicamentos à base de anticorpos direcionados à cepa Zaire.


O Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas também tem sido um colaborador fundamental dos estudos. A Mapp recebeu um contrato de US$ 14,8 milhões da BARDA em 2018 para iniciar um ensaio clínico em humanos do MBP134, após investigações em animais mostrarem que uma dose única "demonstrou eficácia terapêutica sem precedentes" em primatas não humanos contra a cepa Sudão do Ebola.


Na semana passada, a BARDA coordenou o envio de um tratamento experimental com anticorpos para possível uso em americanos de alto risco expostos ao Ebola, disse um porta-voz do HHS (Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA) à CNN. O HHS não respondeu às perguntas sobre se o governo dos EUA também apoiaria ensaios clínicos de medicamentos na RDC ou o desenvolvimento de vacinas direcionadas ao Bundibugyo.


A Mapp também não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre o fornecimento de seu anticorpo ou planos para um ensaio clínico, mas seu presidente, Larry Zeitlin, disse à Nature que a empresa tem doses suficientes para um experimento e que os medicamentos são de propriedade da Barda.


A Regeneron disponibilizou gratuitamente seu tratamento aprovado pela FDA em zonas de surto no passado, compartilhou o cofundador, presidente e chefe científico da empresa, Dr. George Yancopoulos, à CNN.


Ele disse que a empresa também forneceu dezenas de milhares de doses ao estoque do governo dos EUA e está coordenando com o HHS para disponibilizar sua combinação tripla - que contém o anticorpo com atividade contra o Bundibugyo, chamado maftovimab - neste surto.


"Também estamos escalando ativamente a produção do anticorpo único maftovimab, caso haja necessidade de mais tratamento", acrescentou Yancopoulos.


Por que não estamos mais preparados?
O financiamento para pesquisas sobre vírus como o Ebola tem sido vítima de um ciclo de "pânico e negligência". Rojek completou afirmando que: "investimento rápido durante os surtos seguido de perda de impulso depois". A situação é incrivelmente frustrante para os países que combatem constantemente o Ebola.


"Se este surto fosse na Europa ou nos EUA, posso garantir que medicamentos e vacinas estariam disponíveis, mas não estamos aqui para chorar", disse o Dr. Jean Kaseya, chefe dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças, no sábado (23). "Precisamos acelerar com P&D."


"Era uma situação semelhante em 2014. Naquela época, todo mundo também estava correndo de um lado para o outro", relatou Geisbert. Trabalhos do início dos anos 2000 tinham mostrado que a abordagem da VSV Zaire Ebola "é incrível... mas não temos uma vacina de grau clínico." A Merck a adotou "e fez a coisa certa, mas ainda é um processo longo", acrescentou.


Ainda assim, Rojek argumentou que, de certa forma, o mundo está em uma situação melhor do que estava há uma década, com sistemas de vigilância prontos, diagnósticos mais rápidos, formas estabelecidas de conduzir ensaios clínicos e uma coordenação internacional mais sólida.


Há grandes desafios em torno deste surto, incluindo seu epicentro na conflituosa província de Ituri e a forma menos comum Bundibugyo do vírus. Mas "esta não é a mesma situação de 2014." E a pesquisadora destacou que existem métodos de controle de surtos que não dependem de vacinas e medicamentos: "diagnóstico rápido, isolamento, prevenção de infecções, rastreamento de contatos, atendimento clínico seguro e confiança da comunidade".


"Vacinas e terapêuticos são ferramentas adicionais extremamente valiosas. Mas não são o único motivo pelo qual os surtos podem ser controlados", finalizou ela.


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Fonte: CNN

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